Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

BAGAGEM


Todo mundo carrega uma bagagem de vida. Às vezes leve e às vezes pesada. Uma bagagem de histórias que muitas vezes escondemos. Muitas vezes mostramos... Cada um tem sua bagagem, do seu jeitinho. Com sua marca. Não importa a bagagem de vida que você tem, ela é sua! A importância de quem entra nela é você que decide! Decide com os recursos que você tem. Recursos que você conquistou durante vidas. É uma pena que muitas vezes desconhecemos estes recursos que adquirimos com sacrifício. Por quê? Talvez nem desconhecemos, apenas escondemos com medo. É preciso lidar com nossos fantasmas.

Não é fácil lidar com nossos fantasmas. Abrir nossa bagagem e nos mostrarmos “nus e crus”.  O que vão pensar se fizermos isto? Preferimos viver na resignação. Não queremos opinião. Com razão, muitas vezes nem toda opinião é bem vinda. Nem todo mundo que opina está preparado para palpitar. Falam sem profundidade de assuntos que nos são caros. Sem nenhuma piedade. Desconsideram a nossa construção interior. O melhor é se esconder e viver isolado. Besteira. É preciso abrir nossa bagagem nem que seja aos poucos. Revelando cada pedaço da nossa vida. Gente alcoviteira existe em qualquer lugar, e como...


Realmente não importa a opinião de quem não lhe conhece. Abrir nossa bagagem de vida não é muito fácil. Imagine que na sua bagagem tem coisas dos seus ancestrais que você desconhece e que poderiam ajudá-lo em situações conflituosas. Quantos instrumentos não temos em nossa bagagem e desconhecemos? Muitos! Ali guardados. Ali mofados. Ali esquecidos.  Ali vivos. Bagagem dos seus ancestrais. Bagagem construída no tempo. Bagagens ainda fresquinhas. Todas elas podem se transformar em riqueza de vida. Uma riqueza de como podemos tocar a vida. Tocar a vida com esperança. Tocar a vida com dignidade. Tocar a vida...

terça-feira, 12 de julho de 2016

A HISTÓRIA DE ANTONIA


Antonia Gomes da Silva, mulher da roça. Bonita. Morena, quase negra. Vinte anos de idade. Mulher com a cor da roça, que ganhara essa beleza sertaneja labutando de sol a sol. Moça do sítio. Assim intitulam aqueles que moram na cidade. Roupa simples. Vestido de chita, que realçava sua beleza cabocla. Antonia, de comportamento recatado, com seus sonhos e desejo de morar na cidade e mudar de vida. Cansada da roça. Nunca poderia imaginar que esta mudança do sitio para cidade marcaria tão profundamente sua existência. 

É comum quando uma rapariga da roça troca o sitio pela cidade, que seja para ajudar no sustento da família. Trabalhar. Conforme o tempo, o sítio não supre o sustento necessário da família. Raramente esta ida do campo para a cidade é para estudar. Às vezes até acontece essa coisa de fazer a troca e de dar continuidade nos estudos. Não era o caso da moçoila Antonia. Ela foi para a cidade realmente para trabalhar e ajudar nos gastos da casa. Estudo, nem pensar. Entre os cincos irmãos ela fora a escolhida para deixar a casa da família, por não ter muita intimidade com a terra, apesar de não negar trabalho.  

Tem gente que não acredita que existe destino. Penso que ele existe e ainda se cruza com outros...
Dr. Roberto, médico conceituado da pequena cidade de Palestina, no interior de São Paulo. Não imaginava que aquela mulher morena, marcada com a cor forte do sol, fosse entrar na sua vida e marca-la tão profundamente. Existencialmente. Dr. Roberto, além de médico respeitado, era fazendeiro bem sucedido na criação do gado. O café da sua fazenda era premiado internacionalmente. Zeloso. Café de boa qualidade. Beto, como era chamado pela gente do povoado. Gostavam de chamá-lo assim. Ao chamá-lo de Beto criavam uma relação de proximidade e intimidade. O “doutor” o deixava distante e o Beto era um homem como qualquer outro.

Homem vaidoso quando a prosa era coisa da sua fazenda. Do queijo que produzia. Dos prêmios que seu gado ganhava nos concursos pecuários. Parecia um pavão com peito estufado de tanto que gostava do seu belo pedaço de terra. Sem cerimônia. Gostava de coisas simples. Uma cachaça do seu alambique. Apreciava. Com orgulho! Nunca deixava de atender quando era chamado para socorrer um enfermo. Sempre cumpridor da sua missão. Quando não auxiliava as parteiras na divina tarefa de trazer gente nesta terra, ele próprio fazia o parto. Era adorado.

Habituou-se, em quase todos os dias da semana, logo de manhã, a tomar café feito no fogão à lenha no Boteco do Zé Bigode. Só no domingo não cumpria este ritual diário, tomava café com a família e depois iam à missa. Religiosamente. Homem religioso. Mas durante a semana, ali no bar do compadre Zé, conversava com todos. Contava piada. Homem de boa prosa. Indicava o nome do melhor remédio para acabar com os carrapatos do gado dos sitiantes. Toda esta convivência diária com gente da roça não lhe tirava a autoridade como médico. Respeitado por todos. Homem incansável na atividade de curar as mazelas do povo dali. Muitos sitiantes procuravam-no para se aconselhar. Muitos outros o procuravam para que ele pudesse arrumar uma colocação de emprego na fazenda ou mesmo na cidade.    

Foi com essa coisa de arrumar emprego que ele conheceu seu Geraldinho, sitiante daquela região. Anos antes tinha empregado um dos seus filhos. Num certo dia, depois da prosa sobre o melhor tratamento dos suínos, Geraldinho, com toda intimidade que tinha com o Sr. Beto, solicitou-lhe ver a possibilidade de arrumar um serviço em sua casa na cidade para sua filha Antonia. Justificou o pedido dizendo que o doutor sabia que seus filhos eram trabalhadores. “Justino nunca lhe decepcionou. Não é?” “Mande a menina falar com a patroa, seu Geraldinho. Parece que ela está mesmo precisando de alguém para ajudar na cozinha.” Foi assim que a moça Antonia começou a trabalhar na casa do seu Beto. O dinheiro que ganhava mandava para a família e pouco desfrutava.

Com pouco tempo de serviço na casa de D. Elvira, esposa do Dr. Roberto, Antonia destacou-se como ótima cozinheira. Quituteira de mão cheia. Ganhou a simpatia da casa. Dr. Roberto tratava todos os funcionários com respeito e era por eles considerado um excelente patrão. E assim, os anos foram-se passando. Os filhos nasceram, a esposa se foi.

D. Elvira faleceu ainda jovem, com um câncer que em poucas semanas lhe tirou a vida. Antes da morte da esposa, o senhor Beto jamais tivera atrevimento com Antonia. Porém, com o passar do tempo, foi se afeiçoando pela empregada que agora fazia o papel de mãe. Cuidava dos filhos do patrão como se fossem seus. Os olhares. O sorriso maroto com o canto dos lábios denunciava que ali Já existia um grande amor. Em um momento de intimidade com Antonia anos depois, ele disse sussurrando que ela tinha lhe chamado a atenção. Que sua beleza era impactante. Enchia os olhos. Terminou a conversa dizendo que a amava. Apesar de ele estar viúvo, aquele amor tinha que ser escondido. Os filhos dele não aceitariam que o pai se casasse com a empregada da casa. O amor deles era intenso, mas escondido.

Não demorou que eles tivessem um caso às escondidas.  O doutor pensava em como reagiriam os filhos diante daquela paixão. Como explicar ao pai de Antonia que ele estava apaixonado pela sua filha? O medo e a insegurança o fizeram manter aquele romance escondido. Este tempo escondido teria sua validade vencida. Antonia engravidara do seu amor oculto.

O destino faz as pessoas se cruzarem em suas existências, mas também as distancia. Quando o pai de Antonia ficou sabendo da gravidez da filha, disse em alto e em bom som que não tinha filha desonrada. “Desavergonhada! – gritou para ela. Esqueça que sou seu pai.” E antes que o Dr. Roberto ficasse sabendo que ela estava grávida, Antonia abandonou a casa. O médico só ficou sabendo da sua gravidez pela conversa dos alcoviteiros. Antonia saiu da cidade sem rumo, e durante boa parte da gravidez percorreu o interior paulista até chegar a São Paulo. O doutor, inconformado com o seu desaparecimento, pôs gente atrás. Aonde aparecesse uma noticia de Antonia ele ia, a fim de encontrar seu grande amor. Mas talvez agora fosse tarde demais.

Antonia chega a Santos com dores de parto. O bebê estava prestes a nascer. Dilatação. Os moradores a encaminham à casa de D. Maria, uma senhora que conhecia tudo sobre ervas e reza. Ali poderia receber atendimento. Poderia ser acalentada. Na casa de D. Maria, sofrendo com as dores do parto cada vez mais fortes, espera por poucos minutos a parteira mais conhecida da cidade, D. Catarina. A jovem Antonia confessa a D. Maria que não poderia ficar com aquele filho, pois não teria como criá-lo. As lágrimas tomam conta dos seus olhos e ela diz, gemendo de dor, que não era este o seu desejo.
Enquanto ela é preparada pela parteira, D. Maria corre até a vizinha que tinha uma vontade louca de adotar uma criança. Antes de o bebê vir ao mundo, o casal – Pedro e Ana – corre para a casa de D. Maria para assistir ao parto e ficar com a criança. Realizados.

Nasce o bebê. Um menino mirradinho. Chorão. A mãe, com a voz embargada, pede para D. Catarina não deixá-la ver a criança: não gostaria de guardar sua imagem na memória. O casal recebe o menino em seus braços, os olhos brilhando, e a alegria toma conta de Ana e Pedro. A mãe mal fala com o casal, só pede que criem o menino com muito amor.

Antonia teve uma gravidez difícil, tomada pela solidão. Depois de recuperada partiu em busca de reconstruir sua vida. O que aconteceu com Antonia? Será que encontrou Beto novamente? Conta-se que meses depois ela apareceu na casa de D. Maria, acompanhada de um senhor, em busca do filho.  A senhora que atendeu a porta da casa disse que o casal que o adotara tinha se mudado da cidade e não sabia de seu paradeiro.


Será que o senhor que a acompanhava era o Dr. Roberto? Nunca saberemos. Imagino a dor e o sofrimento de uma mãe que deixa de criar um filho porque as circunstâncias são adversas. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

EU...


                                                       “Se for falar de mim me chame, sei coisas terríveis ao meu respeito” - Tati Bernardi
Ultimamente ando brigando muito contra o meu eu. Eu falo. Eu faço. Eu quero fazer. Eu quero mandar. Eu quero assim do meu jeito. Eu sou assim. Enfim, “eus” que não acabam mais. Eus! Estes “eus” são tão sozinhos! Estes “eus” não agregam, separam. Egoísmo puro. Egocentrismo.

Será que precisamos de tantos “eus” para nos autoafirmarmos?  Será que precisamos destes “eus” para sermos felizes? Será possível ser feliz sozinho? Estes “eus” narcisistas impedem que possamos viver coletivamente. O “eu” exagerado no dia a dia tem dificultado a convivência entre as gentes. É um tentando passar a perna no outro. É um Deus nos acuda. A ética que exigimos do outro passa longe do nosso “eu” autoritário. Uns “eus” que não conseguem enxergar o outro. Não pode dar certo.  
Eu falo o que penso, mesmo... Na lata! Não estou nem aí! Fodam-se os outros. Eu sou mais eu! Pensar e agir desta forma é achar que o mundo tem que girar em torno de si. Não confunda a pessoa autêntica com aquela a quem falta educação. Quem fala e agride os outros, desrespeitando-os, é simplesmente um individualista. Não constrói. Divide e afasta.

Todo dia encontramos gente sofrendo de quase tudo por não saber lidar com seus “eus” doentios. É comum o egocêntrico achar defeito em tudo. Achar defeito nos inimigos e amigos. Este cara é aquele que não consegue se enxergar. Enxerga seus defeitos nos outros. É rapidinho para apontar os defeitos dos outros. Bem rápido para colocar qualquer um para baixo. Por outro lado, ser um pouquinho egocêntrico não é tão ruim assim: funciona como forma de defesa. O que não é saudável é justificar seus fracassos e medos usando seus “eus” para esconder-se de quem realmente é.


Os “eus” sem noção são aqueles chatos que quase ninguém aguenta ficar perto. É o sabe-tudo. É aquele que começa uma conversa e fala sozinho. Uma fala sem vírgula e ponto final. Chuta a bola no escanteio, cabeceia e marca o gol e ainda pergunta sua opinião. Não é fácil. Gente assim é difícil de entender a dor do outro. Entende só da sua dor. É gente que precisa de cuidado. Interrompendo a sua fala eu...