Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

terça-feira, 12 de julho de 2011

SUSTENTABILIDADE

“Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso)

Esta mata fica no Nakamura Park, e igual a ela tem várias outras em Cotia. Estes fragmentos de Mata Atlântica estão desaparecendo e dando lugar ao “progresso”. Em abril foram penduradas placas na cerca deste pedaço de mata no Nakamura, que anunciavam a venda de terrenos. Um mês depois do anúncio, as placas foram retiradas e o silêncio tomou conta do lugar. Será que vai aparecer ali um mega empreendimento? Temos que perguntar! Os terrenos foram vendidos? O que vai acontecer com o que sobrou da mata do Nakamura Park?


  
ESTAÇÕES:

Com as mudanças das estações do ano a natureza também se altera demonstrando sutilmente que tem vida. As folhagens das árvores caem, a sinfonia dos pássaros anuncia a chegada do dia ou o anoitecer, e isto vai até imperceptivelmente criando uma relação de afetividade entre homem e natureza. Às vezes um se revolta um com o outro, quando as folhas sujam o quintal ou entopem as saídas de água pluvial. Dá vontade de arrancar aquelas árvores! Mas quando se criam laços fortes de amizade, parece que esta ligação é revitalizada por ações concretas. O Chiquinho, “nosso” macaco, reaparece, os pássaros cantam aos nossos ouvidos e as folhas anunciam a chegada do vento. E aí ninguém quer perder ninguém. Outro dia, até um gambá apareceu com seu cheiro singular. Apareceu para fazer as pazes e Maria Karolina adorou. Afinal, o que vai virar este pedaço de mata?   

     
  
BOATOS:

Dizem que os terrenos foram vendidos e que vão construir um condomínio de casas. Outros dizem que o dono da terra desistiu de vender. Os boatos são muitos, e quero convidá-los  a acompanhar o que vai acontecer com a mata do Nakamura Park, que faz divisa com o Portal da Primavara e Nakamura Park ll. Quem sabe a gente consiga preservar este e outros pedacinhos de natureza que ainda temos em nossa cidade?
Prof. Marcos Roberto Bueno Martinez. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

OS SEPULTAMENTOS NA FREGUESIA DE COTIA

O assunto que é tratado neste estudo do Padre Daniel Balzan é sombrio, mas também revelador. Padre Daniel vai desvendando, aos poucos, de que forma as pessoas eram enterradas na Cotia Colonial. Aposto que com os olhos arregalados a pergunta saltou de  seus lábios: “― Como as pessoas eram enterradas?” Já respondo: “― Como qualquer outro ser humano depois que os homens começaram a cultuar a morte.”
Em Cotia era no adro e no interior da igreja Nossa Senhora de Monte Serrat, em solo sagrado. É bom lembrar que o sepultamento neste período ocorria conforme a condição social e de renda do morto. Segundo os pedidos de senhores da Freguesia, alguns deixavam em testamento o desejo de serem enterrados no altar, acreditando que assim estavam mais próximos de Deus. Paro aqui, para você mesmo descobrir os segredos dos sepultamentos em Cotia...
Professor Marcos Roberto Bueno Martinez

OS SEPULTAMENTOS NA FREGUESIA DE COTIA

Onde e como eram feitos os sepultamentos em Cotia na época do Brasil colonial?

Os Livros de óbitos mais antigos de Cotia registram quatro locais para os sepultamentos: a) a própria igreja matriz, b) o adro da igreja, c) o cemitério da igreja e d) as capelas da freguesia.

Quanto aos enterros na matriz, o Livro de Óbitos dos anos 1750-1775 fornece detalhes muito curiosos. Uns eram feitos “junto às portas das grades”, “abaixo do altar e do cruzeiro de N.Sra. da Conceição”, ou “junto à porta principal da igreja, para fora”. Outros,  “de fronte ao púlpito”,  “púlpito para baixo” ou “acima dos bancos”. Outros ainda, “junto à pia da água benta”, “capela divina”, ou “numa das sepulturas da Irmandade”.

Havia taxas estabelecidas para diversos sepultamentos. Essas taxas variavam de acordo com o local escolhido. Quanto mais perto do altar-mor mais cara ficava a cobrança. Quanto mais perto da porta da igreja, menos se cobrava!  Ora, essas cobranças provocavam queixas seja da parte do vigário, seja da parte do fabriqueiro da igreja ou da própria família do falecido. Uma das coisas que inquietavam o Pe. Salvador de Camargo Lima, por exemplo,  era justamente a questão da esmola a ser cobrada. Querendo uma solução definitiva, o vigário apelou ao visitador Pe. Luiz Teixeira Leitão que visitava a freguesia de Cotia em novembro de 1761 e que baixou o seguinte decreto:

“Fui informado da grande confusão e variedade que há da quantidade de esmola que se deve dar pelas pessoas que são sepultadas nesta Igreja Matriz, levando uns fabriqueiros mais e outros menos, tudo procedido da falta de declaração que de devia fazer no livro do tombo, e desejando evitar aquelas... e que daqui em diante se observe sempre a mesma coisa. Ordeno e mando que o fabriqueiro leve portadas as pessoas maiores e menores que forem enterradas da porta da Igreja até as grades, duas patacas de esmola da sepultura, e das grades até o arco da Capela-mor dez patacas, pois este, se lança nos livros desta Igreja, ser o uso e costume estabelecido na sua criação.  E o Rev. Vigário assim o fará cumprir pena se é estranhar na futura visita, na qual pagará também o fabriqueiro o prejuízo que houver causado por suas omissões”  (Tombo de Cotia: 1728-1844, p.36v).

Cada uma das Irmandades (de Nossa Senhora dos Pretos, de Nossa Senhora da Conceição e a do Ssmo. Sacramento) tinha sepulturas próprias. Os irmãos falecidos eram sepultados com o hábito da própria irmandade ou, simplesmente, enrolados em pano branco e enterrados numa das sepulturas da irmandade, na presença dos demais irmãos conforme atesta o assentamento seguinte:

“Aos 5 de Dezembro de 1797, nesta freguesia faleceu Escolástica Maria de Jesus, casada com Silvestre Pedroso Colares,  filha legítima de Luiz Pereira de Macedo, e do nome de sua mãe não me souberam informar, natural da cidade de São Paulo, de idade de 51 anos; recebeu todos os  sacramentos,  foi  seu corpo envolto em o hábito de São Francisco, por mim encomendado e acompanhado, e por todas as irmandades desta freguesia, e sepultado numa das sepulturas da Irmandade do Santíssimo que lhe cedeu seu marido, por ser irmão, eremido já na mesma Irmandade, transferindo nela todo o direito para sempre, que tinha a tal sepultura. Não fez testamento. E de tudo para constar fiz este assento, que em ausência do Reverendo Pároco”.  

Outros, por sinal, escolhiam de antemão o local da sepultura! Eis o que um certo senhor de nome Pedro Domingues da Fonseca deixou escrito no seu testamento:

“Ao 1º de setembro de 1755 anos faleceu da vida presente Pedro Domingues da Fonseca, casado com Sebastiana de Borba, com todos os sacramentos, de idade de setenta anos mais ou menos, com seu testamento em que deixa sete missas pela sua alma, três pela alma de sua irmã Bárbara Leme e Santos diversos, e assim mais um rapaz por nome Filipe, para com o valor dele se mandarem dizer seis capelas de missas segundo as intenções que no testamento declara, onde deixa por testamenteiro o seu irmão Francisco Leme de Barros, Miguel Soares e Manoel Pereira de Camargo. Foi enterrado junto à porta  principal da Igreja para fora, segundo sua disposição; de que fiz este assento”. Pe. Antônio de Toledo Lara. (Livro de Óbitos de Cotia: 1750-1775, p.35).

Tudo leva a crer que os funerais na freguesia  variavam de acordo com as condições econômicas e posição social da família. Quando, em 1759, faleceu o Capitão Ignácio Soares de Barros, pai do Pe. Fernando Lopes de Camargo, o funeral aconteceu com toda magnificência. Quatro cruzes acompanharam o enterro: a da Irmandade do Ssmo. Sacramento, a do Rosário dos Pretos, a da Boa Morte e a Cruz das Almas  (cf. Inventários não publicados. Arquivo do Estado de São Paulo. ORDEM  No. 670).

Além da própria matriz, os sepultamentos eram feitos no adro, ou seja, no espaço em volta da igreja, no cemitério anexo à igreja e nas diversas capelas da freguesia. O espaço interno da matriz era pequeno demais para abrigar todos os óbitos da freguesia. As crianças falecidas sem batismo e os adultos falecidos sem assistência sacramental eram enterrados no adro e no cemitério, pois, julgava-se na época, que pessoas falecidas em tais condições profanavam o recinto sagrado da igreja.

Nas capelas eram enterradas as pessoas que moravam longe do centro urbano ou “por não ter quem os conduzisse” até a  igreja matriz:

“Aos 19 dias do mês de junho de 1750, faleceu da vida presente Grácia, escrava de Antônio da Rosa, e casada com Lucas, escravo do dito, sem sacramentos por morrer de repente, e foi sepultada na igreja de São João por não ter quem a conduzisse a esta igreja, de que fiz este  assento, dia, mês e era ut supra”- Pe. Patrício de Oliveira Cardoso.  (Livro de Óbitos de Cotia: 1750-1775, p.3).

Por volta de 1791, surgiu na freguesia de Cotia, a varíola, vulgarmente chamada bexiga ou bexigas. Os que faleciam desta moléstia eram enterrados em locais afastados:

“Aos 18 do mês de outubro de 1791, com licença benzi um cemitério perto desta freguesia, de fronte da Cruz das almas que está no caminho que vai para Sorocaba e perto de um pinheiro, para serem sepultados os corpos dos que falecerem de bexigas e males contagiosos para não infetar o povo todo. E para constar, fiz este termo que assino”.- o Vigário Fernando Lopes de Camargo.  (Tombo de Cotia: 1728-1844, p.65v. Arquivo Metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva). 

A partir de 1867 os sepultamentos começaram a ser feitos no cemitério da vila.


Padre Daniel Balzan

quarta-feira, 6 de julho de 2011

BOMBA DE GASOLINA ESSOLUBE (SILVA)




 
Uma outra visão do Posto  Essolube, destacando a bomba de gasolina. A casa que se vê atrás da cerca,  na lateral  que  faz divisa com o posto,  é do Prof. Idomineu Antunes Caldeira,  que hoje dá nome à escola do Bairro do Portão. Para lembrar: este posto pertencia ao senhor Luis Silva e a foto foi tirada no início da década de 40.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

PESSOA EM VÁRIOS TEMPOS

Não é desonroso fazer uma indicação de um livro, antes mesmo de terminar a sua leitura? Tendo motivos claros e emocionais, acho que não tem nada de mau. É isto que vou fazer sem nenhum pudor com o livro “Fernando Pessoa uma quase autobiografia”, escrito por José Paulo Cavalcanti Filho, que entre tantas coisas valiosas que fez na vida, é advogado e consultor da Unesco e do Banco Mundial.
O livro, com mais de setecentas páginas, delicadamente descreve a vida do poeta Fernando Pessoa em muitas vidas. Ler esta obra é gostoso demais e a vontade é que nunca termine a leitura das histórias, que ficam registradas na alma de quem lê. E, ao avançar pelos emaranhados de palavras, fica uma vontade de voltar e de ler de novo cada idéia ali impressa, descobrir novos detalhes que passaram despercebidos aos olhos. Pessoa se revela pessoas extraordinárias.
Na escola e na vida já tinha lido Fernando Pessoa, mas confesso que tinha dificuldade de entender algumas coisas escritas por ele. Agora, conhecendo suas histórias carregadas de conflitos, é que consigo entender o sentido de cada palavra escrita pelo grande poeta.
Selecionei alguns escritos da obra e da vida de Pessoa para convidar todos vocês a conhecê-lo na sua quase intimidade, sua vida, os motivos dos seus heterônimos. Vale a pena ler.

Professor Marcos Roberto Bueno Martinez


NASCIMENTO:
“Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.”
“Poema Inconjuntos”, Alberto Caiero.


O PRIMEIRO VERSO:
“Eis-me aqui em Portugal/ Nas terras onde nasci/ Por muito que goste delas/ Ainda gosto mais de ti.”
Fernando Pessoa (26/7/1895)

A ALDEIA DE PESSOA:
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
Sem título (1911), Fernando Pessoa


ADEUS, ÁFRICA:
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
― O medo ancestral de se afastar e partir,
O mistério receio ancestral à chegada e ao novo –
Encolhe a pele e agonia-nos.
“Ode marítima”, Álvaro de Campos
  
REGRESSO A LISBOA:
“Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...”
“Lisbon revisited” (1926), Álvaro de Campos

Continuo a leitura, saborosamente...

domingo, 26 de junho de 2011

POSTO DE GASOLINA



Arquivo: Eliana Silva


Memória: o Posto ESSOLUBE  pertencia ao Sr. Antonio Baltazar, cunhado do Sr. Luiz Silva, que adquiriu o posto  no período da Segunda Guerra Mundial. (O senhor Luiz Silva é filho do senhor Zacarias Antonio da Silva). Contextualizando a foto geograficamente, nos dias atuais, o Posto ESSOLUBE ficava quase de frente para o Hipermercado Extra, do lado esquerdo. Lembrando que a longa Rodovia Raposo Tavares separava o posto do espaço que em que seria construído o Extra.

Profº Marcos Roberto Bueno Martinez

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A MOSCA AZUL

Depois de ouvir várias citações e comentários sobre o livro do frade dominicano Frei Beto, aguçou-me a curiosidade e a vontade de lê-lo.  Confesso que a princípio esta vontade estava carregada de preconceitos, de que poderia encontrar nas páginas deste livro receitas antigas de como combater o capitalismo e viabilizar o socialismo. Enganei-me! Frei Beto faz uma   reflexão sobre o poder  com lucidez e honestidade ideológica, dos pontos positivos e negativos do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores, apontando o distanciamento de ambos dos movimentos populares.
Deixando de lado o determinismo e propondo nuances diversas na forma de construir uma sociedade melhor, o autor convoca-nos a resgatar os movimentos populares, esquecidos pelos que os defendiam, muitos deles picados pela “Mosca Azul”, de Machado de Assis.
O povo que Frei Beto defende são os excluídos desta sociedade de mercado insana e tema central das suas reflexões. O jornalista reflete sobre o capitalismo, o neoliberalismo, privatizações, corrupção e pobreza sem pedantismo e valorizando a solidariedade e enaltecendo a vida.  A sociedade que está ai não é a única saída que temos. Podemos construir outros jeitos de convivências harmoniosas, quase eliminando as desigualdades sociais. Adorei a leitura.
Leia o livro e faça suas reflexões. Finalizando, transcrevo a poesia “A Mosca Azul”, de Machado de Assis,  que inspirou o autor a colocá-la como titulo do livro:

A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"

Então ela, voando e revoando, disse:
— "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
Machado de Assis

terça-feira, 14 de junho de 2011

QUEBRANDO TABUS


Tentei resistir para não escrever sobre assuntos polêmicos, dos quais não tenho domínio, mas não consegui. A inquietação tomou conta da minha alma.  
Assuntos delicados deveriam ser escritos por especialistas e solucionados por ações concretas de política pública, mas vou me atrever a dar minha singela opinião, mesmo correndo o risco de escrever bobagens e de fazer comentários ingênuos ou julgamentos descabidos.  Esta  água turva que está tocando meus pés, há muito tempo me incomoda, e a omissão é uma aceitação dos fatos. Vou usar da experiência de Professor em sala de aula e de Secretário da Educação para contar algumas histórias de gente que esteve envolvida com drogas ilícitas e o quanto a vida delas e de suas famílias virou de cabeça para baixo. Para resguardar as pessoas, os nomes usados aqui são fictícios.
Lembro de quando falávamos de drogas na escola, há  um tempo atrás. Era algo distante, mas  com o passar dos anos, elas se aproximaram, e mais recentemente  saltaram o muro da escola, impregnando o ambiente escolar.
O Antônio era um destes meninos diferentes dos outros alunos. Usava cabelo com cortes que chamavam a atenção, e quando quase nenhum menino usava brinco ele já tinha o seu enfeitando as orelhas. Era do tipo corajoso. Curtia Rock, usava jeans surrado e começou a fumar maconha e a usar outras drogas. Até aqui podemos tirar a seguinte conclusão, apressadamente: este jeito dele já poderia ser um sinal de que ele estivesse usando drogas. O que  precisamos é evitar tirar conclusões simplistas, para não cair no erro de criar estereótipos que não correspondem à verdade.
Este amigo, “do nada” deixou de frequentar a escola, e reapareceu no ano seguinte. Muitas perguntas e informações duvidosas surgiram entre os amigos neste período de ausência: “O Antonio está preso!”, “Está trancado dentro de casa!”,  “Virou mendigo.” – e algumas conversas mais imaginativas já anunciavam sua morte. Quando reapareceu, ele contou sua história de recuperação em uma clínica, com total apoio dos pais.
“― Cara, na primeira semana fiquei trancado em um quarto. Via baratas, ratos e outros bichos  e achei que ia ficar louco.”
Ganhamos o amigo de novo e alegria na sala de aula. Não demorou muito tempo e Antônio voltou novamente para as drogas e abandonou a escola. Antonio passou pela maconha, pela cocaína e pelo crack, e por várias internações. A última internação dele, já com quarenta e cinco anos, eu acompanhei de perto. Além das drogas ilícitas ele tinha adicionado ao seu currículo o álcool,  esta droga que é licita, mas que fez um estrago ainda maior na sua vida. Hoje ele está recuperado. Sabe da sua doença e se vigia vinte e quatro horas por dia. É importante ressaltar neste caso, que a presença dos pais foi fundamental para a sua recuperação.         
Com a “geração do crack” as histórias são mais trágicas. Num dia de aula fui tirado da sala aos gritos de alunos que anunciavam a morte de uma aluna. A Mônica tinha sido encontrada assassinada em um matagal atrás da escola, com o corpo desfigurado. Vários tiros no rosto! Ela era uma menina bonita, conversadeira, alegre e sempre disposta a ajudar os amigos, boa aluna. Mônica ultimamente andava estranha, as faltas às aulas aumentavam e aquela alegria foi trocada pelo silêncio e o rosto carrancudo. Arredia.
História curta, a da Mônica com o crack: até a morte, dois meses. Os pais não sabiam do envolvimento dela com as drogas, e para eles a filha  ainda era uma menina tranquila. A escola percebeu mudanças comportamentais, mas nada fez, pois estava despreparada para lidar com questões que fugiam do seu conhecimento. Os pais não perceberam que a filha não era mais uma menininha, e sim uma adolescente que agora precisava de muita atenção e cuidado.
A última história é a do João, que até outro dia usava calça curta e que aos poucos foi mudando, e começou a usar coca e crack. O primeiro sinal de que alguma coisa estava errada foi quando a mãe percebeu que começaram a sumir objetos em casa.  João, desde os 13 anos, continua vivendo assim, de pequenos roubos. Até quando?
Existem programas de prevenção nas escolas municipais e estaduais, e existem clínicas particulares, que cuidam de dependentes, mas que são absurdamente caras. É triste registrar, também, que o tratamento público ainda é precário e até mesmo inexistente em algumas cidades. As drogas estão batendo às nossas portas e levando nossos filhos.
Fica uma sensação de impotência.

Professor Marcos Roberto Bueno Martinez