Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

AMANHECER...


Começo com este texto a escrever meu primeiro livro de ficção. A cada capítulo vou dividi-lo com os leitores da coluna que mantenho semanalmente no Portal Viva Granja Vianna e no meu blog: www.cotiamemoriaeeducacao. blogspot.com. Espero contar com sua opinião e sugestões de como caminhar com estahistória.

AMANHECER...

Às seis horas da manhã. Inverno intenso! Muita neblina. Tanta neblina que não dava para enxergar um palmo diante dos olhos. Em cada casa da pequena cidade um galinheiro no fundo do quintal. Galinheiro multirracial, ali viviam patos e porcos e outras aves exóticas. Esses galinheiros funcionavam como um despertador. Despertador que denunciava a chegada de um novo dia. 

Apesar do frio, um belo dia.

O primeiro a anunciar a chegada da manhã era o galo Edivaldo,bicho de estimação da família Magalhães. Edivaldo era tratado como gente. Imagine, quando Edivaldo desapareceu, o desespero tomou conta da família. Quem sequestrou Edivaldo?O desfecho foi uma coisa maluca.

Aos poucos uma janela é aberta aqui outra ali e os moradores vão levantando e o cheiro do café toma conta das ruas e dos becos. Em quase todas as casas, acompanhando o café, alguns moradores tomam uma dose de “pau-a-pique” para aliviar a manhã gelada.

No meio da neblina surge lentamente Morrudo, com passos calculados milimetricamente. Cada passo dado,uma história. Cada passo dado, uma dúvida.Morrudo uma incógnita? A primeira porta que encontra aberta entra e vai até à beira do fogão a lenha, se serve de uma caneca de café quente. Uma mesa rústica com doces caseiros e pães no meio da cozinha formam aquele ambiente simples. Morrudo, com elegância, se serve de um pedaço de bolo. Assim Morrudo começa seu dia realizando pequenas tarefas.

Era muita tranquilidade para uma única manhã.

O silêncio foi quebrado pelos gritos de vovó Timbira. Os seus gritos assombravam e ecoavam pela principal rua da cidade -eu tive a visão, eu tive a visão, eu tive a visão!Vovó Timbira, como era conhecida no lugarejo,começou a ter alucinação depois de ser abandonada no altar. Caiu em desgraça na comunidade, tinha, antes do casamento, se entregado ao salafrário. Ele chegou sem passado e desapareceu como desaparece a neblina com a chegada do sol.

No começo, seus gritos assombravam os moradores toda segunda sexta-feira do mês. Depois os gritos ocorriam a qualquer hora. Dizem os antigos que era doença da cabeça (loucura). Dizem outros que era doença do amor. 

Quando Timbira ia voltando ao normal, contava que via, nas suas visões,uma porca e sete porquinhos que seguiam uma moça de branco com o rosto desfigurado que subia a rua principal da cidade até a Igreja Matriz. Depois descia essa mesma rua até desaparecer...

Porque os gritos?


Assim começava aquele dia calmo e agitado ao mesmo tempo. Depois dos gritos de vovó Timbira, o burburinho tomava conta do lugar. Nem tanto pelos gritos que faziam parte do cotidiano daqueles moradores, mas cada um tinha seus afazeres corriqueiros.