Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DE COTIA, COM A SENSIBILIDADE E INTELIGÊNCIA, DA JORNALISTA MARIANA MARÇAL.



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Diversos lugares em Cotia foram cenários de momentos importantes para a história. Em homenagem aos 157 anos da emancipação político-administrativa do município, a equipe da REVISTA CIRCUITO foi buscar no passado fatos que não podem ser esquecidos e curiosidades que marcaram o povo de Cotia, de geração para geração. Você sabe quem foi o primeiro mendigo de Cotia? Ou os incêndios que marcaram a cidade? A importância do município para o cinema brasileiro?
Nesta e nas páginas seguintes você confere estas e outras histórias raras que marcaram a nossa cidade.
A PRIMEIRA TELEVISÃONo fim dos anos 1950, uma das primeiras televisões da cidade estava no Bar São Luiz, da família Savioli. Ela não aparece na foto porque está escondida atrás da coluna. A máquina de café elétrica e o balcão de mármore (substituindo o de madeira) eram as grandes novidades da época. Os atrativos reuniam muitas pessoas no estabelecimento, que se tornou um ponto de encontro.
JORNAL PIONEIROO primeiro jornal foi publicado em 1948 e se chamava O Cotiense. No entanto, somente em 1956 começaram a ser editados jornais regionais que reproduziam matérias associadas às transformações do município. Assim fazia o Jornal A Tribuna, de 1959. Apesar da pressão política, eram instrumentos da comunidade. Somente em 1979, chegou o Jornal da Cidade – liderado por José Torrezani e Tarrachinha.
MORRUDO – O MENDIGO
Ninguém sabe como ele chegou ou foi embora de Cotia, mas Morrudo, o mendigo, ajudava as pessoas com os afazeres domésticos do dia a dia para ganhar alguns trocados.
O ESTILISTA DENERA Avenida Denne, no Parque São George, é uma homenagem ao estilista Dener Pamplona de Abreu, paraense radicado em São Paulo na década de 1980 e precursor da alta-costura no Brasil. Foi Dener o primeiro costureiro a vestir uma primeira-dama, Maria Teresa Goulart, de quem se tornou amigo íntimo, e o primeiro estilista a sofrer um atentado político – uma rajada de metralhadora contra seu Lincoln presidencial preto, em julho de 1968. Dener transformou a ópera Carmen em música acelerada, em um desfile em 1970. A granjeira Maria Cristina Von Narozny, proprietária da loja Gift Shopping, foi manequim tanto de Dener quanto de Clodovil e a grande responsável pela vinda dos dois para a Granja Viana. Dener morava na Rua Boa Vista e, de acordo com informações, bem nessa esquina onde está o muro branco era sua residência: a Chácara Olodum. Morreu aos 42 anos, em 1978.
EPIDEMIA DE VARÍOLA
O primeiro registro de surto de varíola em Cotia data de 1791. Os corpos não podiam ser enterrados em solo sagrado, e houve a necessidade de se criar um cemitério em outro lugar, como revela documento da Igreja Nossa Senhora de Monte Serrat. Cento e trinta e sete anos depois, outro surto de varíola assombrou Cotia e região. Um relatório de higiene datado de 1926 detalha o surto pela cidade e mostra a precariedade em relação à educação sanitária e ao avanço da epidemia. Na fotografia, o senhor Joaquim Nascimento aparece vacinando uma família de brasileiros, habitantes das proximidades de Cotia.
VÍRUS SABIÁ
O mortal vírus Sabiá, isolado em 1994, recebeu esse nome porque a primeira pessoa infectada no mundo foi uma moça que contraiu o vírus na casa de seus pais, no bairro Jardim Sabiá, em Cotia. Ele causa a febre hemorrágica brasileira. O quadro clínico é semelhante ao da gripe, com náuseas e vômitos, e progride para complicações renais e morte. Foi identificado pelo Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. Acidentalmente, dois pesquisadores (um em Belém, no Pará, e outro nos Estados Unidos) foram infectados, mas conseguiram sobreviver.
FANZINEIROS COTIANOSO Fanzine Press foi o pioneiro do gênero em Cotia. A ideia do criador, Beto Kodiak, era dar espaço para bandas novas do rock paulistano e brasuca. O primeiro foi feito só por ele. A partir do número 2, juntaram-se à equipe Eduardo Coruja, Gerson Washington e Amaury Torrezani. Durou dois anos e 11 edições, feitas primeiro em xerox e depois offset, sempre antenados com as novidades do rock nacional. O Press deu “furos” até em grandes revistas da época, como Bizz, Roll e Trip. A tiragem era pequena, distribuída em Cotia e São Paulo. Chegava a outros estados via Correios e cruzou fronteiras, indo para países como Estados Unidos, Suíça, Portugal, Espanha e Angola.
INCÊNDIOS QUE MARCARAMNo dia 6 de junho de 1980 houve um incêndio no depósito do Supermercado Pedroso da Praça da Matriz. O prejuízo foi de 25 milhões de cruzeiros, e a população comprou o que restou para ajudar a família a recomeçar. Seis meses depois, reinauguraram o novo espaço. Dezessete dias depois, foi a vez de a indústria de brinquedos Genovesi pegar fogo. Foi em uma noite de segunda-feira, em 23 de junho de 1980. Vários departamentos foram consumidos pelas chamas. A empresa nunca mais foi a mesma. Anos depois, foi à falência. Um fato curioso nos dois casos foi a atuação dos usuários de PX (rádio amador), que era muito ativo em Cotia. Foram eles que mobilizaram bombeiros e demais autoridades.
DIZEM POR AÍ...Que o sino da Igreja do Morro Grande foi doado pelo então governador Adhemar de Barros, e que, na primeira badalada, rachou e quase foi confiscado por falta de pagamento. Dessa peça foram feitos dois sinos que estão até hoje na Igreja. Que o estacionamento da Rua 10 de Janeiro, no centro, foi um cemitério e há pessoas enterradas lá. Isso acontece porque ali havia uma igreja que, posteriormente, foi demolida. Quando não existiam cemitérios, os moradores eram enterrados ao redor das igrejas. A igreja não existe mais, mas os defuntos, segundo os antigos moradores, estão no espaço até hoje.
O PRIMEIRO SEMÁFORO
Foi instalado próximo do Colégio Zacharias Antônio da Silva (onde, atualmente, é a Escola Estadual Pedro Casemiro Leite) e servia para auxiliar os alunos da escola a atravessar a Raposo, que não tinha tanto movimento como hoje, mas já era perigosa.
PIZZARIA EM COTIA
As primeiras redondas saíram da Pizzaria do Dante, na Rua 10 de Janeiro, no Centro de Cotia.
APITO INICIALO time de futebol pioneiro em Cotia foi a Associação Atlética Cotia, fundado em 15/12/1980.
COMPRA DE ESCRAVOSO documento comprova o comércio de escravos em Cotia, entre 1859 e 1860. O senhor Antônio Paes Cardoso comprou de Joaquim Francisco de Moraes a escrava de nome Virginia, de 20 anos. O escrivão deste documento foi o agente João José Coelho.
CINEMA DO JUBRAN
Você acha que Cotia ganhou cinema somente agora? Engano seu. Entre os anos 1970 e 1980, no centro da cidade, havia o Cinema do Jubran. O nome mudou algumas vezes para Cine Central, Virgínia, mas era conhecido mesmo como o Cinema do Jubran, que é o nome do antigo proprietário. A lista de atrações contava com filmes da época, como Os Trapalhões, e pornochanchadas com atores famosos: Reginaldo Farias, Vera Fischer, entre outros. Mas não só de filmes vivia o cinema. Festivais de música, palestras, formaturas de escolas e peças teatrais entre tantos eventos aconteceram no local, que ficava na Rua Senador Feijó, ao lado de onde funciona atualmente a loja Tina Esportes. O cinema acabou em razão da crise do mercado cinematográfico, na década de 1980.
COTIA E O CINEMA BRASILEIROEm 1972, a série Dom Camilo e Seus Cabeludos, que tinha no elenco Otelo Zeloni como personagem principal e grandes nomes, como Ney Latorraca e Nuno Leal Maia, teve cenas gravadas na Igreja da Matriz e nas ruas centrais de Cotia, todas as terças-feiras. Os cabeludos eram liderados por Denis Carvalho, ainda em começo de carreira. A mocinha da série era Terezinha Sodré. Com o incêndio na TV Tupi, as gravações foram perdidas. Filme Mágoas de Cabloco − Há 41 anos, foi gravado em Caucaia do Alto. Contava a história de um caipira, o Chico Fumaça, personagem do ator Nhô Juca, uma espécie de imitação de Mazzaropi. Filme Amante muito Louca – Em 1973, Stepan Nercessian estrela Junior, um playboy que vira amante da amante de seu pai, vivido por Cláudio Corrêa e Castro. As cenas foram gravadas na Raposo Tavares, entre os quilômetros 28 e 30. No elenco, Jô Soares, Alcione Mazzeo e Tereza Raquel. Filme A Virgem − Estrelado por Nuno Leal Maia, o filme tinha no elenco Kadu Moliterno, Nádia Lippi, Tony Tornado e Dionísio Azevedo. Algumas cenas foram gravadas próximo da churrascaria do Km 30 da Raposo Tavares e no jardim que tinha em frente. Vocês sabiam que uma cena do filme Pelé Eterno foi gravada no campo de futebol do Morro Grande? O diretor, Aníbal Massaíni, queria reproduzir cenas antigas, e a arquibancada lembra um pouco o futebol antigo.
CLIQUES
Laerte, conhecido como Lete, foi o 1º fotógrafo de Cotia. Na foto, o da esquerda.
CINEMA EM CASA
José Félix de Oliveira e Genuíno Viana, irmão de Niso, foram vizinhos, e seus filhos cresceram juntos. As famílias conviviam como se fossem parentes. Genuíno alugava filmes da época, como O Zorro, pendurava um lençol entre dois bambus e fazia a sessão de cinema para os moradores próximos.
Colaboraram nesta matéria:
O historiador e ex-secretário da Educação de Cotia, Marcos Martinez, e o jornalista Beto Kodiak.