Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

RÁDIO ECO: A PRIMEIRA PIRATA DO BRASIL


Lógico que o slogande chamada da Rádio Eco não era esse do título do texto. Abríamos o programa orgulhosamente dizendo com voz firme e aveludada: Rádio Eco FM 91.7, a primeira Comunitária do Brasil (não me lembro muito bem se era Cotia ou Brasil). Talvez a cena mais trágica e que, depois do acontecido, se tornou engraçada foi quando a Polícia Federal fechou a emissora. Mantínhamos uma vigilância diária para evitar que fôssemos pegos de surpresa pela Polícia Federal. Infelizmente, fomos pegos de calças curtas.

No dia do fechamento das atividades radiofônicas da Eco, o transmissor tinha queimado. O irmão do Josué tinha ido buscar o transmissor para consertar no esconderijo que ficava no próprio prédio e um segundo de bobeira relaxamos a atenção com a segurança. Um piscar de olhos e a Federal nos pegou de calças curtas com o Rabibi (irmão do Josué) com o transmissor nos braços que íamos consertar. Lembro-me que o agente disse com um sorriso no rosto: - foi isso que viemos buscar. Puta que pariu!

A casa caiu.

Dias depois, o sinal da Eco estava no ar de novo,clandestinamente. Bastava ter vontade de fazer um programa e o espaço estava à disposição. Não precisava ter boa dicção e nem beleza para ser locutor. Bastava ter uma ideia de programa e colocar em prática. Até um gago chegou a fazer um programa. Gagueira essa nunca percebida. Essa atitude de respeitar e não querer um padrão de voz e beleza fez da Eco uma emissora popular no município e na região. A grade de programação tinha programas para todos os gostos. Era muito bom!

Ali na Eco aconteciam coisas inusitadas e malucas. Tínhamos uma ouvinte que, de madrugada, não desligava o Rádio e a justificativa era de que a programação não a deixava sozinha. Mesmo sem programação o chiado do rádio preenchia sua solidão. No final do ano, a emissora fazia do Natal solidário um sucesso. Campanhas educativas... Era uma porta aberta para a comunidade e seus anseios.

Fazíamos debates e discussões sobre temas diversificados. Debates com candidatos a prefeito e participação de ouvintes. Tocávamos de tudo, do brega ao rock. Tínhamos programa representando quase todas as religiões. A grade de programação era rica e diversa. Hoje, fico imaginando como aquilo funcionava tão bem. Era algo anárquico. O Cícero e o Josué eram anárquicos também. Eles que trouxeram a rádio para cá.

A cobertura das eleições de 1996 foi algo nunca visto na cidade. Até a grande mídia ligava para a Eco para obter informações de como andava a eleição no município. Quase todos os locutores foram para a rua acompanhar a eleição. Tinha a turma que fazia humor aqueles que faziam entrevista na rua, ao vivo. Debates no Estúdio sobre as necessidades da cidade e o que esperar dos candidatos. Muito bom!

Fazíamos política descaradamente para legalização das rádios comunitárias. As grandes empresas de comunicação jogavam pesado contra as comunitárias, criando notícias descabidas de que as piratas davam interferência em aviões, afirmação nunca provada. E outras mentiras.

Uma coisa bacana de tudo isso foi que a Eco deu voz para que gente simples pudesse falar e colocar seus projetos em prática.