Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

terça-feira, 17 de março de 2015

QUANDO O CORPO PEDE LIMITE


Conversando com um amigo de longa data, ele demonstrou estar com dificuldades imensas de aceitar o limite que a idade lhe impõe. Está inconformado porque não pode fazer as coisas que fazia quando ainda era fisicamente jovem. Esse companheiro de longa data enfrenta uma dificuldade de encarar o tempo. Está tomado pela tristeza e a irritação. Está insuportável consigo mesmo, imagina com os outros. 

Aceitou conversar comigo sobre esse assunto por achar que sou o único da amizade antiga que poderia entendê-lo. Que poderia ouvi-lo. Está tomando remédio pesado para combater uma depressão profunda. Não se conforma que suas ações cognitivas estão tinindo e as mãos não obedecem ao seu comando. Não deve ser fácil mesmo determinar um comando e o corpo não obedecer. Até então estava funcionando tudo dentro da normalidade entre o corpo e a inteligência, realmente é difícil aceitar nossas limitações com o passar do tempo.

A conversa começou com lagrimas e lamentações de que ele tinha envelhecido,é a vida que estava uma droga. A vida estava uma porcaria. Uma lembrança ali, outra aqui, e o sorriso voltou e os pensamentos estavam tinindo de boas recordações. Lembra quando jogávamos peladas e fazíamos aquelas jogadas e o raciocínio tinha que ser rápido. A reação do corpo era imediata. “Lembra da Neuzinha, que garota linda”. Tivemos um entrevero. A conversa estendeu noite afora. Lembrou de quase todos e todas com detalhes. Lembranças que brotavam com alegria e, ao se lembrar do tempo que passou,as lágrimas corriam pelo canto dos olhos.

“Outro dia, ao subir uma escada calculei o passo errado e caí como uma abóbora madura. Esfolei toda a perna e o rosto. Os filhos preocupados anunciavam que estava precisando de uma guardadora. Fiquei furioso! Disse rispidamente que não aceitaria ninguém cuidando de mim e entrando na minha privacidade. Em respeito, eles se calaram”. A companheira de anos de convivência percebeu que não conseguia cuidar de mim, também tem suas limitações. Como uma guerreira, uma amazona, não desiste do cuidado que sempre teve. Mesmo com dores na coluna. Como está difícil assumir que o tempo passou e com ele chegam as limitações do corpo.


“É difícil entender que continuo escrevendo, lendo produzindo um rico material para o jornalismo, mas seguro um copo de água com muita dificuldade. Parece que a extensão dos braços está mais curta que os pensamentos. Meu amigo como foi bom você me ouvir sem opinar sem seus valores sobre o tema. Estava precisando apenas falar a alguém que pudesse ouvir”. Saiu da nossa conversa aliviado e entendendo melhor o que está acontecendo.