Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

quarta-feira, 30 de março de 2011

DESCOBRINDO COTIA (1)

APRESENTAÇÃO


O Padre Daniel Balzan foi vigário em Cotia e agora exerce sua função sacerdotal na Igreja Matriz da cidade de São Roque. Um excelente sacerdote e pesquisador, Padre Daniel é natural de Malta, pequeno país situado no Golfo de Sidra. Além de exercer a sua função de pároco com dedicação nesta praça, também se dedicou a pesquisar a História de Cotia, utilizando os documentos produzidos na vida cotidiana das capelas: livros de batismo, de casamento, testamentos e óbitos. Desta forma, a pesquisa realizada por ele foi confeccionando delicadamente um pedaço da História do município, com seriedade cientifica.

 Os textos “Capelas da Freguesia de Cotia”, “Os Protetores da Freguesia de Cotia”, “As Irmandades da Freguesa de Cotia”, “Os Limites da Freguesia de Cotia” e “Os Sepultamentos na Freguesia de Cotia”, escritos pelo Padre Daniel Balzan, revelam os costumes, as tradições e a religiosidade da Cotia colonial. O texto “Capelas Da Freguesia de Cotia”, que ora apresento aos leitores, mostra a influência da Igreja e o poder que esta exercia no Período Colonial, e a inexistência da presença do Estado colonizador, substituído em lugares longínquos pelas capelas e pela dedicação de padres que mantinham uma relação próxima dos moradores mais simples. Outro aspecto interessante deste texto é que, com as capelas como referência, os limites geográficos do município eram completamente diferentes de hoje. 

 Vou deixá-los à vontade para que conheçam Cotia melhor, e tirem suas próprias conclusões.


Prof. Marcos Roberto Bueno Martinez


CAPELAS DA FREGUESIA DE COTIA

Apresentamos um levantamento das capelas da freguesia de Cotia, a partir de 1684. Este levantamento foi feito a partir de uma leitura atenta dos livros de Tombo, batizados, casamentos e óbitos da Paróquia de Nossa Senhora de Monte Serrat até 1933. Dividimos este trabalho em duas partes: a) 1684-1900 e b) 1901-1933.



CAPELAS: 1684-1900


1.       A Primitiva Capela – O documento mais antigo que fala da primitiva capela de N. Sra. de Monte Serrat data de 1684. Trata-se de uma folha avulsa que deveria pertencer ao 1º livro de Tombo de Cotia, assinada pelo bispo do Rio de Janeiro, Dom José de Barros Alarcão, que visitou a freguesia de Cotia em 1684 (1). Naquela época a paróquia pertencia à diocese do Rio de Janeiro, que se estendia até o sul do Brasil.

2.       A Matriz Atual – A Matriz de Cotia, também dedicada a N. Sra. de Monte Serrat, foi inaugurada no dia 9 de Setembro de 1713. De acordo com a ata da posse assinada pelo Pe. Mateus de Laya Leão, todos os pertences da primitiva capela foram levados para Itu, menos a imagem da padroeira, que foi trazida para a Matriz atual no dia da inauguração (2). A Matriz foi construída pela ajuda de alguns protetores, entre os quais se figurava o Coronel Estevão  Lopes de Camargo, que cedeu uma parte de seu sítio para a construção da nova capela (3).

No tempo de Pe. Salvador Garcia Pontes (1718-1745) a freguesia de Cotia contava com cinco capelas: N. Sra. das Graças, São João, N. Sra. da Conceição, São Roque e N. Sra. do Carmo.

3.       N. Sra. das Graças – Ficava no bairro das Graças. Era de propriedade particular e de pequenas dimensões. Tinha um coreto e dois sinos sobre uma das janelas da frente (4). Nesta capela o Pe. Salvador Garcia Pontes realizou casamentos em 1728.

4.       São João – Ficava no bairro denominado Barreiro. Nela Pe. Pontes realizou casamento em 1728. Em 1761 a capela ficou quase abandonada. Na época, o zelador era um certo senhor de nome Manoel Pereira de Camargo, que morava no mesmo bairro. Pe. Luiz Teixeira Leitão que visitava a freguesia de Cotia no mesmo ano ficou tão impressionado pelo abandono da capela, que obrigou o zelador a levantar fundos para cobrir a igreja e o alpendre que estavam destelhados, consertar os batentes da porta principal, como também providenciar um confessionário para que a mesma capela atendesse melhor ao culto católico (5).

5.       N. Sra. da Conceição – Ficava no bairro de Itapeva. Esta capela ficou abandonada e foi demolida por ordem de Dom Frei de Madre de Deus, que visitou a freguesia de Cotia aos 16 de outubro de 1757. Não tinha patrimônio algum e já que nela entravam animais, o bispo visitador mandou derrubá-la e no lugar do altar erguer uma cruz de madeira de lei (6). Nela, em 1731, Pe. Salvador Garcia Pontes realizou casamentos.

6.       São Roque – A capela de São Roque ficava entre a freguesia de Cotia e de Araçariguama. Nela, em 1730, Pe. Salvador realizou casamentos. Em 1732 essa capela ainda pertencia a Cotia pois o próprio visitador Alexandre Marques do Vale que visitou a freguesia em 1732, ao se referir a essa capela, chama a atenção do vigário Pe. Salvador Garcia Pontes e dos administradores da mesma por não providenciarem os objetos necessários para o culto divino (7).

No decorrer dos anos, porém, a capela de São Roque foi desmembrada de Cotia e passou a pertencer à freguesia de Araçariguama. Os Autos de Delimitação da Paróquia de São Roque afirmam que no ano em que foram feitas as divisas entre Cotia e Araçariguama (12 de janeiro de 1748), a capela de São Roque dependia de Araçariguama. Mas, já naquela época, se pensava na criação da Paróquia de São Roque com vigário permanente (8). As obras da nova capela de São Roque formam terminadas em 1766. A vistoria das obras foi feita pelo vigário de Cotia, Pe. Salvador de Camargo Lima, aos 2 de novembro de 1766 (9).

7.       N. Sra. do Carmo – Ficava no bairro de Sorocamirim. Era uma capela particular construída no sítio de Belchior de Borba Pais. Tanto a capela como o sítio foram doados aos padres de N. Sra. do Carmo em 1737, conforme consta no testamento do benfeitor (10). Belchior de Borba Pais faleceu aos 9 de Dezembro de 1737 e foi enterrado na igreja Matriz de Cotia com o hábito da confraria de N. Sra. do Carmo, da qual era irmão.

8.       N. Sra. do Rosário – Pertencia aos Padres da Companhia de Jesus que cuidavam dos índios de Carapicuíba. Nessa capela, em 1733, Pe. Salvador Garcia Pontes realizou um casamento (11). Em 1759 a aldeia passou  a ser administrada pelo vigário de Cotia, por causa da expulsão dos Jesuítas do território brasileiro por ordem do Marquês de Pombal.

9.       N. Sra. da Penha – Era uma capela de regular dimensão. Ficava perto da Matriz de Cotia, na atual Rua Lopes de Camargo. Hoje restam apenas os alicerces da nova capela da Penha, que Pe. Luis Martini procurava construir. Nela Pe. Manoel das Dores Rocha fez sepultamentos em 1853. Tinha sacristia e pequena torre com quatro sinos (12).

10.   Santa Catarina – Ficava em Carapicuíba. Somente em 1893 aparece a primeira referência a essa capela por ocasião de um batismo realizado pelo Pe. João de Souza Carvalho, autorizado  pelo vigário de Cotia, Pe. Manoel das Dores Rocha.

11.   Bom Jesus da Pedra Fria – Não sabemos nada a respeito desta capela a não ser que ficava no bairro de Sorocamirim, e que em 1894 Pe. Jacinto Mastrangelo fez um batizado quando serviu como vigário.

12.   Bom Jesus – Ficava no bairro de Itaqui. De acordo com Pe. Domingos Scacia, vigário de Cotia entre 1902-1905, “era uma capela de antiga construção num estado precário, ameaçando ruir. Por mais de uma vez alguns vigários celebravam missa nesta capela” (13).  Nela, em 1894, Pe. Jacinto Mastrangelo fez um batizado.


  
CAPELAS: 1901-1933


13.   Santa Cruz – Em 1901, Pe. Manoel Martins recebeu licença do vigário de Cotia (Pe. Nicolau Veltri), para nela realizar um batismo. O livro de batizados de 1914 menciona a capela “Sta. Cruz no bairro do Ribeirão”. Não sabemos, porém, se são a mesma capela.

O relatório sobre a Paróquia de N. Sra. de Monte Serrat elaborado pelo Pe. Domingos Scacia em 1905 descreve, além da Matriz, sete capelas: 1) N. Sra. da Penha, 2) N. Sra. das Graças no bairro das Graças, 3) N. Sra. da Conceição em Caucaia do Alto, 4) São João, junto à Estação na linha Sorocabana, 5) Santa Catarina em Carapicuíba, 6) Bom Jesus no Bairro do Itaqui e 7) São João no bairro denominado Barreiro (14).

Ora, muitas dessas capelas eram construções antigas, conforme relatamos acima. Este relatório não menciona as capelas de N. Sra. da Conceição de Itapeva, por ter sido demolida em 1757, de São Roque, por ter sido criada freguesia em 1766, e N. Sra. do Carmo, por pertencer aos padres do Convento do Carmo na Capital.

14.   N. Sra. da Conceição – De acordo com  Pe. Domingos Scacia, a capela de Caucaia do Alto era uma das maiores da freguesia de Cotia. Foi construída e dirigida por uma associação religiosa. Tinha quatro sinos sobre as janelas da frente e um coreto. Era uma capela limpa interna e externamente. A sacristia ficava nos fundos, na parte superior (15). Os primeiros batizados foram realizados aos 19 de março de 1915 pelo Pe. Virgílio Baguzzo Capuchino. A partir desta data os batizados começaram a ser feitos regularmente na mesma capela.

15.   São João – Ficava perto da estação da linha Sorocabana. Em 1845 foi feita a ligação ferroviária entre São Paulo e Sorocaba.

16.   São Benedito – Certamente havia, pelos anos 1906, a capela dedicada a São Benedito. Ficava perto da Igreja de N. Sra. da Penha. No mesmo terreno havia, portanto, duas capelas, uma dedicada a N. Sra. da Penha e outra a São Benedito, pequena e precária! Encontramos um episódio curioso relacionado à capela de São Benedito, registrado pelo Pe. Aurélio Fraissat:

A Capela de S. Benedito estava fechada em virtude de um interdito lançado por S. Excia. Rev. Sr. D. Duarte Leopoldo e Silva para expiação de um crime que cometeram algumas pessoas que faziam parte da Irmandade de S. Benedito. Espancaram o vigário por ter este querido impedir que tirassem esmolas pelas ruas com o oratório ou relicário de S. Benedito e ter feito isto com uma certa violência demasiada. Tendo isto chegado ao conhecimento do S. Bispo, ele mandou que se fechasse a capela com um interdito. Este interdito foi levantado no dia 16 de maio de 1909. Era um Domingo; depois da missa paroquial, o Pe. Bosse rezou com o povo, de joelhos, os salmos penitenciais e em seguida fez sair a procissão com a imagem de S. Benedito para a capela do Santo; tendo chegado, fizemos a  abertura da porta e entoamos o ‘TE DEUM’, ficando assim de novo aberta a capela de S. Benedito” (16). Pe. Luis Bossi, jesuíta, era o superior da missão que veio para Cotia a pedido do Sr. Bispo Dom Duarte Leopoldo e Silva. A Santa Missão começou aos 18 de abril e terminou aos 30 de junho de 1909.

17.   São Pedro  - Os livros de batizados mencionam esta capela em 1917. Ficava no bairro de Vargem Grande. Era uma capela antiga feita de taipa.

Notamos, porém, que a partir de 1919 começam a aparecer, nos registros de batizados e no livro de Tombo da época, inúmeras capelas. Pe. José Teixeira de Seixas, vigário entre 1918 e 1933, realizou inúmeros batizados em dezenas de capelas espalhadas pelo território paroquial. Observamos ainda que de um total de 50 (cinquenta) capelas, 12 (doze) eram dedicadas à Santa Cruz, 16 (dezesseis) à Nossa Senhora e 22 (vinte e duas) a santos diversos.

Essas capelas, geralmente pequenas e precárias, foram sendo erguidas por iniciativa de indivíduos ou dos habitantes de uma determinada localidade. Neste caso, faziam-se coletas, pediam-se esmolas, realizavam-se mutirões. Algumas eram de particulares.

O altar do Santo ocupava o lugar central da capela. Às vezes, esta era pequena demais para abrigar todos os devotos. Bastava ter altar com a Imagem do santo! O santo tinha a sua  “casa”! Ao zelador ou capelão cabia a tarefa de manter viva a devoção ao santo como também zelar pela conservação da mesma capela. Na ausência da capela, os devotos tinham um pequeno oratório.

Certamente, havia muitas outras capelas nas redondezas da freguesia e que não são mencionadas nos registros paroquiais. Limitemo-nos  àquelas mencionadas nos livros citados. Transcrevemos o nome da capela, a localidade, a data dos primeiros batizados e alguns comentários esclarecedores para se ter uma idéia clara desse fenômeno.


18.  Quadro das capelas da freguesia de N. Sra. de Monte Serrat

(elaborado a partir dos livros de Tombo: Anos 1918-1933)



Capela

Local

Data

Comentário





1 – Santa Cruz
Caminho da Estação
1919
Também conhecida como capela da Sta. Cruz da Cruz Preta.
2 – Santa Cruz
Maracananduva
1919
Na fazenda Maracananduva
3 – Santa Cruz
Barueri
1919

4 – Santa Cruz
Bairro São João
1919
Km 45. Também conhecida como Capela da Cruz Grande.
5 – Santa Cruz
Barueri
1920
Na fazenda  do Dr. Pimentel.
6 – Santa Cruz
Aguassaí
1923

7 – Santa Cruz
? ?
1926
Km 29.
8 – Santa Cruz
Águas Espraiadas
1928

9 – Santa Cruz
Caiapiá
-

10 – Santa Cruz
Rio Cotia
-

11 – Santa Cruz
Grilos
-
Dedicada também ao Sagrado Coração de Jesus.
12 – Cruz Nova
Bairro São João
1919

13 – N. Sra. Conceição
Bairro São João
1919

14 – N. Sra. Conceição
Bairro dos Pires
1928

15 – N. Sra. Conceição
Caucaia do Alto

Cf. Capela No 14 acima.
16 – N. Sra. Conceição
? ?
1919
Era dos jesuítas.
17 – N. Sra. Conceição
Bairro dos Abreus
-

18 - N. Sra. Conceição
Bairro dos Pereiras
-

19 –N. Sra. Conceição
Nhã Tuca

Caucaia.
20 – N. Sra. Conceição
Rio Cotia
-

21 – N. Sra. Conceição
Morro Grande
-

22 – N. Sra. Conceição
Rincão
1925

23 – N. Sra. Aparecida
Bairro São João
1928

24 – N. Sra. Aparecida
Aguassaí
1930

25 – N. Sra. da Penha

-
Reformada pelo Pe. Seixas. Cf. Capela No.9 acima.
26 – N. Sra. das Brotas

-
Caucaia
27. N. Sra. das Graças
Moinho Velho
-
Tinha torre e sinos. Ficava no terreno de Domingos e Grácia Fontana
28 – Coração de Maria
Caiapiá
-
Ficava no terreno de um japonês abastado.
29 – São João
Itaqui
1925

30 – São João
Bairro dos Pereiras
1926

31 – São João
Bairro do Ressaca
1928

32 -  São João
Bairro dos Pitas
-
Km 32. Foi construída por iniciativa da família Samartino, proprietária da fazenda das palmeiras.
33 -  São João
? ?
1928
Km 42.
34 -  São Pedro
Vargem Grande
1917

35 -  São João
Bairro dos Soares
1924

36 -  São Roque
Portão
1927

37 -  São Roque
? ?
-
Fazenda do Alto
38 – São Benedito

-
Ficava perto da Matriz. Cf. Capela No. 16 acima.
39 -  São Miguel Arc.
Ribeirão
1927
Fazenda Santa Rosa.
40 – São Martino
Bairro das Pitas?
1930
Km 32 (Cf. Capela No 32 acima).
41 – Santo Amaro
Ressaca
1931

42 -  Bom Jesus
Itaqui
-

43 -  Bom Jesus
Ribeirão


44 – Santa Catarina
Carapicuíba
-
Cf. Capela No 10 acima.
45 – Sta. Bárbara
Quatro Encruzilhadas
1925
Bairro São João.
46 - ? ?
Cachoeira
1933

47 - ? ?
Aterrado
1921
Bairro do Capitão Jerônimo.
48 - ? ?
Grilos
1920

49 - ? ?

1922
Fazenda do Lageadinho.
50 -  Sta. Terezinha
Itapevi
1932-




A devoção à Santa Cruz já existia na freguesia de Nossa Senhora de Monte Serrat. Consistia praticamente da reza do terço, da ladainha e outras orações puxadas pelo capelão. Certamente, a chegada dos missionários por ocasião das Santas Missões contribuiu muito para a proliferação desta devoção e, consequentemente, para o surgimento de tantas capelas dedicadas à Santa Cruz. O canto da Santa Cruz era o seguinte:

Chegai pecador contrito,              
beijar a Santa Cruz;

Pedindo misericórdia

ao nosso Bom Jesus.

 

Se não fosse Deus

e a Virgem Maria,
Ela é mãe dos pecadores,
triste de nós o que seria!

Após a recitação do canto, o povo beijava a Cruz e dava uma esmola. Havia também uma dança, chamada de “Sarapaté”. O capelão, após a reza, pedia licença à Santa Cruz para fazer a dança. A dança era feita fora da igreja. As mulheres formavam uma roda e os homens também. As mulheres no lado de dentro e os homens no lado de fora. Estes, de botina e esporas, batiam no chão. A festa durava duas noites!

No livro de Tombo de Cotia (1978-1912) encontramos a seguinte observação feita pelo Pe. Aurélio Fraissat

“Esta devoção (à Santa Cruz) às vezes degenera-se em devoção mundana e até pecaminosa, porque depois do terço, da ladainha, ou outra devoção que costumam fazer organiza-se um bate-pés depois da reza, acompanhado e esquentado pela pinga, que causa àquela reunião um aspecto mau, como anunciando as péssimas conseqüências que dali irão nascer. Também este mal já está mais ou menos extinto pelos missionários. Hoje já sabem que não é boa coisa dançar em frente da Cruz ou Capela e não fazem mais aquela prática condenada pelos missionários” (17). Os missionários julgavam que era falta de respeito dançar na frente do Santo. Depois que o missionário falava as pessoas ficavam receosas de dançar!


Capelas da freguesia de Cotia – referências:

1)      Cf.  “Folhas avulsas” In: Pasta de Cotia. Arquivo Metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva. SP.
2)      Livro de Tombo de Cotia: 1728-1844, p .1.
3)      Cf. “Testamento de Estevão Lopes de Camargo” In: Inventários não publicados. Ordem 697. Arquivo do Estado de SP.
4)      Cf. Livro de Tombo de Cotia: 1878-1912, p. 152.
5)      Livro de Tombo de Cotia: 1728-1844, p .37.
6)      Idem p. 31.
7)      Idem p. 9v-10.
8)      Cf. Livro de Tombo de Araçariguama: 1747-1859, p .13.
9)      Cf. Autos de Ereções e Patrimônio de Capelas. Vol.1, p .161.
10)   Cf. “Testamento de Belchior de Borba Pais” In: Manuscritos pré-classificados – Cotia e Santana do Parnaíba: 1738, p.7. Arquivo Metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva. SP.
11)   Cf. Livro de Casamentos de Cotia: 1728-1749, p .49.
12)   Cf. Tombo de Cotia: 1878-1912,  p. 152.
13)   Idem. p.152.
14)   Idem. p.155.
15)   Idem. p.152.
16)   Idem. p.183.
17)   Idem. p.176v.


  Padre Daniel Balzan

PERSONAGENS

UMA BREVE INTRODUÇÃO


Enviei este texto para uma amiga fazer uma avaliação, e logo em seguida recebi uma  observação sem rodeios: “― Está faltando alguma coisa... você não vai fazer nenhum comentário?” Voltei a reler o texto das fotos e realmente vi que ela tinha razão. A princípio achei que não seria necessário, pois as fotos falam por si. E queria também que ele fosse lido com o conteúdo de cada leitor. 

 
Tenho um arquivo significativo de fotos antigas de Cotia e percebi que quase não existem fotos de mulheres e, quando elas aparecem, não estão em papel preponderante nas imagens, sempre aparecendo em segundo plano. Porque será? Poderia apressadamente dizer que a sociedade local era extremamente machista, mas prefiro deixar esta hipótese de lado e propor um estudo da mulher na História de Cotia. 


Assim sendo, quero convidá-los a fazer uma leitura cuidadosa das fotos dos antigos moradores desta cidade, que tem muito a dizer aos nossos sentimentos.  

  
  
Vicente Pedroso, funcionário da Caixa Econômica Federal e da Coletoria Estadual; José Borba, conhecido pelo apelido de Borbinha, era motorista de ônibus; Dr. Francisco Figueiredo Filho, médico do posto de saúde que se localizava do lado da loja da Léia; Joaquim de Moraes Victor, enfermeiro do posto de saúde; Roque Savioli, comerciante.



Esta foto foi tirada no dia 23 de novembro de 1952, há 59 anos. Ao fundo observa-se a Capela de Nossa Senhora da Penha, e o personagem na frente é um dos andarilhos que passaram por Cotia, e o que mais cativou os moradores. Inácio Santo era seu nome. Ele prestava serviço aos moradores carregando latas de água, e a cada lata de água carregada, as pessoas pagavam-lhe um tostão. Maria Pedroso Moraes, de 84 anos, conhecida como dona Mariazinha, guarda em suas lembranças que Inácio, além da lata na cabaça, trazia duas outras nas mãos e andava pelas ruas da cidade cantarolando e dançando.




Da esquerda para direita: Flavio Luz, Kayano, Luiz Egídio Fechio (Pinguim).




Da esquerda para direita: Dr. Osvaldo, Kayano, Kassio. Essa foto foi tirada em 1948, em Pirapora do Bom Jesus.



Da esquerda para direita: Maria Aparecida do Rosário Magalhães, Deodomiro de Castro Pedroso, Joaquina Benedita de Castro e Benedita de Castro Pedroso. Ao fundo a casa que eles moravam, na rua Joaquim Barreto, antigo nº 30. A frente da casa foi construída de taipa de pilão e o fundo de pau-a-pique.




Ao fundo a Praça da Matriz.


Professor Marcos Roberto Bueno Martinez

quinta-feira, 17 de março de 2011

CRECHE OU CENTRO EDUCACIONAL?

Para entendermos a diferença de conceito entre creche e centro educacional, precisamos voltar um pouco no tempo.  O termo centro educacional é de uso recente e as pessoas tendem a confundir com creche. E como confundem! Creche é creche e centro educacional é centro educacional.  Ou seja, na creche, a preocupação com o bem-estar físico da criança é o principal foco, enquanto que no centro educacional, ela é atendida também no aspecto intelectual. É bom lembrar que a Educação Infantil no Brasil, em termos de cuidado por parte do Estado, é bem recente.  Para que se tenha uma idéia, em Cotia, as primeiras creches estavam ligadas a entidades filantrópicas e religiosas. Por exemplo, a Creche Modelo IV, no Jardim Coimbra, e a Creche Modelo V, no Rio Cotia, são ligadas ao grupo Perseverança e estão em atividade no município há vinte e seis anos. São exemplos de como as crianças devem ser tratadas na primeira idade. Enquanto isto, o poder público local mantinha os então chamados “parques infantis”, que são bem diferentes de creche, e muito mais ainda do atual conceito de centro educacional. Há uma outra creche que deve ser lembrada e que também é antiga no município, a Escola  Criança Feliz, que se localiza no centro de Caucaia do Alto e que até há pouco tempo era mantida por uma entidade ligada a um grupo suíço. Com as mudanças também se transformou em um Centro Educacional. Estes foram os primeiros passos dados em termos de uma política de creches em Cotia, que encontramos documentados. 

 

 
O que observamos atentamente neste tempo de Secretaria de Educação é que quando uma mãe procura uma vaga num Centro Educacional, é porque ela não tem quem  cuide do seu filho para que ela possa trabalhar. Normalmente, esta mamãe está desesperada! A vaga no Centro Educacional  garante o emprego, caso  contrário o desemprego.  Sem medo de cometer algum tipo de injustiça com outras cidades, foram poucos os municípios na Grande São Paulo que investiram na construção de centros educacionais como o município de Cotia.* Durante a administração do prefeito Quinzinho foram construídos 17 centros educacionais, que atendem  a crianças de zero a três anos, e foram mantidos convênios com outras cinco entidades filantrópicas. 


É importante salientar que o cidadão que precisa  da vaga no Centro Educacional  não pode  só pensar que esta vaga vai salvar seu emprego.  É preciso uma mudança de mentalidade. Este espaço está além disto: ele vai possibilitar ao seu filho dar os primeiros passos nas múltiplas  linguagens do conhecimento.  A cultura do emprego reforça a idéia de que este “espaço de atividades múltiplas com o conhecimento” continua sendo um depósito de crianças. Aí não importa o tamanho, a arquitetura, a quantidade de crianças que se coloca e a pedagogia utilizada, pois é apenas um depósito. Por incrível que pareça, ainda hoje tem muita gente que pensa assim. Neste período de secretaria recebi várias visitas para conhecer o trabalho que estávamos fazendo em educação no município e uma destas visitas marcou muito pelo relato de um prefeito sobre o que ele pensava sobre creches: “ Olha, na minha cidade nós temos o kit creche. Pega um espaço, pinta as paredes e coloca alguns desenhos infantis e alguns móveis coloridos, e está pronta mais uma creche. E dá muito voto depois.” É um absurdo!   

    
Pensando em cuidar bem destas crianças é que demos um passo qualitativo em relação aos Centros Educacionais em Cotia, completamente diferente do kit creche citado. Para implantarmos um  ensino de qualidade nessa época, fomos estimulados pelas experiências dos centros educacionais modelos IV e V, que nos ensinaram os primeiros passos para uma educação melhor. A creche do passado existia para cuidar fisicamente deste filho: trocar, dar banho, por para dormir e outros cuidados que uma criança nesta idade exige. Queríamos muito mais do que isto! Centros educacionais tinham  que  cuidar desta criança no todo. No físico e na alma. A partir do espaço arquitetônico começa a construção de um ambiente ideal para a prática de uma educação decente. Logo na sua tenra idade a criança passa por estímulos que vão ajudar na sua alfabetização mais adiante. Preocupamo-nos com a formação dos professores e os resultados foram perceptíveis, com crianças indo para o Ensino Fundamental alfabetizadas. Outra ação importante do governo além do Plano de Carreira foi, sem obrigação legal, estender o repasse até os professores de Educação Infantil.  



  
 * Bairros e jardins de Cotia que foram contemplados com a construção de Centro Educacionais  para crianças de zero a três anos, na administração do prefeito Quinzinho: Centro Educacional Magali do Nascimento Vieira Arias, no Jardim Santa Ângela (km 21 da Rodovia Raposo Tavares), C. E. Rita H. Fortes, no Parque São Jorge (reforma e ampliação), C. E.  Recanto Suave (centro educacional deixado em fase de construção pela administração do prefeito Quinzinho), C. E. Walmor Caetano Ferrareto, no  Jardim Cotia (construído em parceria com a empresa Plastwal). C. E. Tereza Rivera da Silva, no Jardim Turiguara, C. E. Danielli Albuquerque Mathias, no Alto de Caucaia, C. E. Dr. Délio de Lima Junior, no Jardim Japão, C. E. Ernesto Mendes da Silva, na Vila São Francisco, C. E. José Roberto Maceno, no Mirante da Mata, C. E.  Odária Mendonça da Fonseca, no Jardim Sandra. No Jardim São Miguel o centro educacional foi deixado em fase de construção. No Jardim Petrópolis foi construído o C. E. Antonio Salgado Olores, o C. E. Ana Maria dos  Santos Souza, no Jardim Panorama, o C. E. Graciliana Maria da Conceição, no Jardim Arco-íris, o C. E. Ho Deh Kong, no Parque Alessandra, construído em parceria com a empresa H. Buster, e o C. E. Felix Alves Folha, no Recanto dos Victor. Além destas construções mantivemos convênios com maior ou menor intensidade, com outros centros educacionais de entidades filantrópicas: Madre Iva, Modelo IV e V, Criança Feliz e Projeto Âncora.

 


MEMÓRIA&IMAGEM AGORA NA WEB

Postei o livro Memória & Imagem em um blog, abrindo assim a possibilidade de que um número maior de pessoas tenha acesso às suas Histórias. Optei em colocá-lo de uma única vez, em uma única postagem, correndo o risco de que a leitura possa ficar cansativa. Por outro lado, o livro não precisa ser lido de uma única vez, pois a sua estrutura permite começar a leitura de trás para frente, ou no meio, de onde você desejar.
O que acho particularmente interessante é poder entrar na memória dos antigos moradores de Cotia, conhecer como era a cidade, e mesmo quem não é daqui vai acabar por lembrar de histórias parecidas do lugar onde mora. Curta esta leitura delicada.
Você pode encontrar o livro no endereço
ou acessá-lo através do link neste blog.

segunda-feira, 14 de março de 2011

ANTIGA ESTRADA DO PORTÃO


                                              
Esta foto foi tirada na década de 40. Para que possamos nos localizar, este ponto da estrada, que hoje conhecemos como Raposo Tavares, fica em frente ao “Extra”. Naquele tempo a estrada recebia o nome de São Paulo-Paraná, e ali funcionava um entreposto comercial que atendia aos moradores da cidade, aos tropeiros de passagem rumo a Sorocaba e ao Sul do país, e também a viajantes em geral. Nesta década, Cotia tinha 13.439 habitantes. Hoje são mais de 200.000.

Eliana Silva, neta do Nhô Zaca, acrescentou algumas informações ao texto que vão elucidando as memórias desta cidade, que parecem estar tão distantes. Ao mesmo tempo, quando nos debruçamos sobre estes documentos, percebemos que cada história, cada carro, a arquitetura de cada casa e a ocupação do espaço geográfico estão muito vivos ainda:

“Recebi a resposta do Edu, meu primo, com as informações de Valter Silva, neto mais velho do Zacharias, ainda vivo. No velório da Dirce conversei com Aristides Oliveira, que nasceu e cresceu no Portão e está com uma memória fascinante. Foi ele quem falou do Instituto Nacional do Pinho. A foto foi tirada bem em frente ao posto da guarda civil, anterior aos guardas rodoviários do DER. Eram esses guardas civis que paravam os caminhões carregados de madeira vinda do Paraná e de Santa Catarina. O instituto foi criado em 19/3/1941 e funcionou até 1967. (Google)”

Continua Edu, primo de Eliana: Meu pai confirmou. A construção à esquerda era o "Posto do Pinho" mesmo. Onde os caminhões paravam para fiscalização pela polícia. Na foto aparecem os policiais, os quais costumavam ganhar muitos presentes... rsrs.... cabritos, porcos, galinhas, palmitos, etc. A antiga padaria do Portão ficava do lado direito desta construção, e na foto, ainda não havia sido construída. A casa mais à direita, meu pai não se lembra o que era, mas disse que ficava entre a antiga padaria do Portão e a casa da tia Geni. O morro ao fundo é onde hoje está a Etrusca, o prédio da Telefônica e mais à esquerda, a Prefeitura.


Essa foto recente mostra as mudanças que aconteceram neste período de quase 70 anos. É importante observar a intervenção do homem no espaço, mudando radicamente a geografia do lugar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

QUEM TEM MEDO DE SER AVALIADO?


Quase todo mundo tem medo de ser avaliado. Eu tenho! Quem não tem? Este receio é bobagem, pois somos avaliados todos os dias pelas nossas ações. É que às vezes não percebemos ou não queremos perceber. Pare! Olhe com atenção, que sempre tem gente espiando e avaliando.  Exagero à parte, este tema na educação é muito discutido e as opiniões em relação a ele são conflitantes e geram controvérsias. Isto é saudável! Tirando os receios e os preconceitos, ser avaliado transformou-se  em uma  necessidade, tanto para o governo quanto para aqueles que estão envolvidos no processo de educar, em todos os seus níveis. Talvez este receio por parte dos educadores tenha motivo: é aquela velha idéia de que a corda arrebenta do lado mais fraco. O que notamos nas últimas duas décadas foi o investimento em educação feito intensivamente, mas de forma desorganizada. O dinheiro se perde na ineficiência dos governos e na falta de um projeto com objetivos, metas e resultados claros. Os motivos para isto são vários, mas talvez o motivo maior seja que os projetos em educação são de governos e não do Estado. Entra e sai governo mudam-se as nomenclaturas, e às vezes não é dada continuidade a projetos na área educacional que estão dando resultados positivos, por pura vaidade política. Besteira!               
Há anos que estamos diagnosticando! E só diagnosticamos! Sabemos dos problemas e dos caminhos que devemos tomar. O que nos impede? Na década de 90 a discussão sobre avaliação foi muito intensa e o educador Luckesi, especialista em avaliação, contava uma história muito interessante e que vou repetir, para que possamos refletir porque patinamos tanto no diagnóstico. Um paciente chega a um ambulatório reclamando de fortes dores nas costas. O médico atende, examina, pede um “raio-x” e conclui que o diagnóstico é de que o paciente está com pneumonia no pulmão esquerdo. Depois de apresentar o diagnóstico, o médico pede para o paciente voltar no dia seguinte. O paciente volta e o médico percebe que a pneumonia começa a tomar conta do pulmão direito. O médico, preocupado, pede para o paciente voltar no dia seguinte. O paciente volta em uma situação pior ainda. E  novamente o  médico pede para ele voltar no dia seguinte. O paciente nunca mais volta. O que será que aconteceu com o paciente? E o que acontece com os nossos alunos? Mesmo com este quadro temos várias experiências que mostram que podemos dar um salto além do diagnóstico.
 Em Cotia, através da Secretaria da Educação, implantamos o Sistema de Gestão Integrada, com o objetivo de dar um salto de qualidade no ensino, organizando a escola e a Secretaria de Educação com objetivos, metas e resultados. Além deste projeto, o Instituto Gerdau viabilizou a quarenta diretores de escolas municipais cursos de autogestão. O principal objetivo da Secretaria de Educação de Cotia em possibilitar estes cursos foi para que as escolas que participaram dessem o salto além do diagnóstico. Ou seja, pulamos o muro das lamentações, deixamos de achar que tudo era muito difícil. E os resultados começaram a aparecer. Das quarenta e cinco escolas que participaram da Prova Brasil, apenas cinco não alcançaram o índice proposto pelo governo federal. Mesmo assim, não ficaram muito abaixo. É bom salientar que não foram apenas os cursos de gestão que contribuíram para este aspecto positivo. Os cursos de formação e outras ações foram decisivos também, o que em outro momento vamos retomar em detalhes. Outro aspecto importante é que os índices de aprovação de muitas escolas municipais estão acima de muitas escolas particulares da região.

quinta-feira, 3 de março de 2011

NO LIMITE


A pesquisa sobre a ocupação territorial de Cotia, escrita e publicada em livro pelo arquiteto e historiador Mário Savioli, merece ser lida e apreciada por quem pretende conhecer melhor a cidade. O autor elege a Rodovia Raposo Tavares como tema central do seu estudo, e a partir dele mostra o surgimento dos bairros periféricos e a expansão e ocupação territorial da cidade, feita de forma intensiva e desordenada nas últimas décadas. Uma pesquisa muito singular sobre Cotia. Um outro aspecto interessante do trabalho do historiador Mário Savioli é a contextualização histórica da sua tese. Imagine Cotia sem a Rodovia Raposo Tavares. Ela sempre foi a espinha dorsal da cidade. Vamos lá! Como eram as vias de comunicação antes da Raposo Tavares? As trilhas indígenas, os rios e córregos eram uma forma de adentrar em nossas terras e também de ir além delas, rompendo fronteiras. Pensando assim, quero convidá-lo a conhecer Cotia com um olhar diferente do que estamos acostumados. Venha comigo! Começaremos a partir dos rios que ficam nos limites do município, depois iremos às nascentes, e por último aos rios degradados.   
Como sugestão, este tema é instigante para realizar uma pesquisa e envolver os alunos. Vamos ao Jardim Japão!  O jardim Japão faz divisa com a cidade de Ibiúna,  e o rio que faz esta divisão é o Sorocamirim, que tem uma importância significativa  na vida dos moradores deste lugar. O Jardim Japão surgiu na década de 80, com terrenos de 5m por 25m, e o crescimento foi rápido, mas muito mais do que rápido. Não tinha água potável e nem saneamento básico. Os moradores começaram a furar poços e a construir fossas, e não demorou  muito tempo para contaminar o lençol  freático. O olhar dos lideres comunitários do bairro voltou-se para o rio Sorocamirim como  solução para a falta de água. Foram anos de luta para que os problemas fossem resolvidos. Hoje o bairro recebe água tratada da Sabesp e do rio que divide Cotia de Ibiúna. A Sabesp instalou ali um posto de tratamento de água separado da estrutura que abastece Cotia. Não é interessante? Não só interessante, como merece um estudo aprofundado. E por outro lado, é uma experiência que pode ser implantada em outros lugares.
                                                        

Estação de tratamento de água da Sabesp do Jardim Japão, no Rio Sorocamirim.  
                        

Rio Sorocamirim, que divide Cotia de Ibiúna.
 
O Ribeirão da Ressaca divide o município de Cotia com a cidade do Embu e com Itapecerica da Serra. Existe uma certa confusão em relação a esta divisão do município. Conversei com um morador antigo do bairro da Ressaca sobre a existência daquele ribeirão, e  ele não sabe quase nada e tem poucas lembranças, mesmo morando ali há quarenta anos. O que percebi dos moradores é que a ambiguidade cerca aquele lugar, pois as pessoas não sabem muito bem onde fica a divisa e a qual município pertencem. “Aqui neste fim de mundo, quem chegar primeiro e fizer alguma coisa pra gente, leva o voto”, disse um morador. O mais estranho de tudo é que o ribeirão não é nem percebido pelos moradores. Não tenho idéia se são todos, mas a indiferença é grande em relação ao ribeirão . Também merece um estudo. Fica muito claro que, se a comunidade não sente aquele ribeirão em suas vidas, é difícil preservar.
Outro ribeirão que divide Cotia de São Paulo e Osasco  é o Ribeirão Carapicuíba, ali no km 21. As moradias foram se formando com o tempo, na divisa, e os problemas também. O rio que antes servia de caminho e até abastecia a população, agora se tornou um problema. Diferente do Sorocamirim, que abastece o Jardim Japão. Durante anos os moradores  sofreram com as inundações, aparentemente resolvidas no ano passado com a construção de uma contenção lateral no barranco do rio. Outro rio que divide a cidade é o Córrego da Estiva. Este e o Ribeirão Carapicuíba parecem mais um esgoto a céu aberto. O Córrego da Estiva divide Cotia de Itapevi, ali no bairro do Rosemeire. Talvez, de todos os rios da cidade, este esteja em um estado mais deplorável do que os outros. Vale lembrar que na divisa fica a Roselândia, que deve ser resgatada e apresentada à cidade e ao mundo, pois ali existem experiências maravilhosas com rosas. Nesta pequena conversa dá para fazer uma viagem pela história de Cotia e do Brasil. A ocupação do território brasileiro a partir de Cotia e outros temas como a escravidão são fascinantes. É só querer.