Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

quinta-feira, 17 de março de 2011

CRECHE OU CENTRO EDUCACIONAL?

Para entendermos a diferença de conceito entre creche e centro educacional, precisamos voltar um pouco no tempo.  O termo centro educacional é de uso recente e as pessoas tendem a confundir com creche. E como confundem! Creche é creche e centro educacional é centro educacional.  Ou seja, na creche, a preocupação com o bem-estar físico da criança é o principal foco, enquanto que no centro educacional, ela é atendida também no aspecto intelectual. É bom lembrar que a Educação Infantil no Brasil, em termos de cuidado por parte do Estado, é bem recente.  Para que se tenha uma idéia, em Cotia, as primeiras creches estavam ligadas a entidades filantrópicas e religiosas. Por exemplo, a Creche Modelo IV, no Jardim Coimbra, e a Creche Modelo V, no Rio Cotia, são ligadas ao grupo Perseverança e estão em atividade no município há vinte e seis anos. São exemplos de como as crianças devem ser tratadas na primeira idade. Enquanto isto, o poder público local mantinha os então chamados “parques infantis”, que são bem diferentes de creche, e muito mais ainda do atual conceito de centro educacional. Há uma outra creche que deve ser lembrada e que também é antiga no município, a Escola  Criança Feliz, que se localiza no centro de Caucaia do Alto e que até há pouco tempo era mantida por uma entidade ligada a um grupo suíço. Com as mudanças também se transformou em um Centro Educacional. Estes foram os primeiros passos dados em termos de uma política de creches em Cotia, que encontramos documentados. 

 

 
O que observamos atentamente neste tempo de Secretaria de Educação é que quando uma mãe procura uma vaga num Centro Educacional, é porque ela não tem quem  cuide do seu filho para que ela possa trabalhar. Normalmente, esta mamãe está desesperada! A vaga no Centro Educacional  garante o emprego, caso  contrário o desemprego.  Sem medo de cometer algum tipo de injustiça com outras cidades, foram poucos os municípios na Grande São Paulo que investiram na construção de centros educacionais como o município de Cotia.* Durante a administração do prefeito Quinzinho foram construídos 17 centros educacionais, que atendem  a crianças de zero a três anos, e foram mantidos convênios com outras cinco entidades filantrópicas. 


É importante salientar que o cidadão que precisa  da vaga no Centro Educacional  não pode  só pensar que esta vaga vai salvar seu emprego.  É preciso uma mudança de mentalidade. Este espaço está além disto: ele vai possibilitar ao seu filho dar os primeiros passos nas múltiplas  linguagens do conhecimento.  A cultura do emprego reforça a idéia de que este “espaço de atividades múltiplas com o conhecimento” continua sendo um depósito de crianças. Aí não importa o tamanho, a arquitetura, a quantidade de crianças que se coloca e a pedagogia utilizada, pois é apenas um depósito. Por incrível que pareça, ainda hoje tem muita gente que pensa assim. Neste período de secretaria recebi várias visitas para conhecer o trabalho que estávamos fazendo em educação no município e uma destas visitas marcou muito pelo relato de um prefeito sobre o que ele pensava sobre creches: “ Olha, na minha cidade nós temos o kit creche. Pega um espaço, pinta as paredes e coloca alguns desenhos infantis e alguns móveis coloridos, e está pronta mais uma creche. E dá muito voto depois.” É um absurdo!   

    
Pensando em cuidar bem destas crianças é que demos um passo qualitativo em relação aos Centros Educacionais em Cotia, completamente diferente do kit creche citado. Para implantarmos um  ensino de qualidade nessa época, fomos estimulados pelas experiências dos centros educacionais modelos IV e V, que nos ensinaram os primeiros passos para uma educação melhor. A creche do passado existia para cuidar fisicamente deste filho: trocar, dar banho, por para dormir e outros cuidados que uma criança nesta idade exige. Queríamos muito mais do que isto! Centros educacionais tinham  que  cuidar desta criança no todo. No físico e na alma. A partir do espaço arquitetônico começa a construção de um ambiente ideal para a prática de uma educação decente. Logo na sua tenra idade a criança passa por estímulos que vão ajudar na sua alfabetização mais adiante. Preocupamo-nos com a formação dos professores e os resultados foram perceptíveis, com crianças indo para o Ensino Fundamental alfabetizadas. Outra ação importante do governo além do Plano de Carreira foi, sem obrigação legal, estender o repasse até os professores de Educação Infantil.  



  
 * Bairros e jardins de Cotia que foram contemplados com a construção de Centro Educacionais  para crianças de zero a três anos, na administração do prefeito Quinzinho: Centro Educacional Magali do Nascimento Vieira Arias, no Jardim Santa Ângela (km 21 da Rodovia Raposo Tavares), C. E. Rita H. Fortes, no Parque São Jorge (reforma e ampliação), C. E.  Recanto Suave (centro educacional deixado em fase de construção pela administração do prefeito Quinzinho), C. E. Walmor Caetano Ferrareto, no  Jardim Cotia (construído em parceria com a empresa Plastwal). C. E. Tereza Rivera da Silva, no Jardim Turiguara, C. E. Danielli Albuquerque Mathias, no Alto de Caucaia, C. E. Dr. Délio de Lima Junior, no Jardim Japão, C. E. Ernesto Mendes da Silva, na Vila São Francisco, C. E. José Roberto Maceno, no Mirante da Mata, C. E.  Odária Mendonça da Fonseca, no Jardim Sandra. No Jardim São Miguel o centro educacional foi deixado em fase de construção. No Jardim Petrópolis foi construído o C. E. Antonio Salgado Olores, o C. E. Ana Maria dos  Santos Souza, no Jardim Panorama, o C. E. Graciliana Maria da Conceição, no Jardim Arco-íris, o C. E. Ho Deh Kong, no Parque Alessandra, construído em parceria com a empresa H. Buster, e o C. E. Felix Alves Folha, no Recanto dos Victor. Além destas construções mantivemos convênios com maior ou menor intensidade, com outros centros educacionais de entidades filantrópicas: Madre Iva, Modelo IV e V, Criança Feliz e Projeto Âncora.

 


MEMÓRIA&IMAGEM AGORA NA WEB

Postei o livro Memória & Imagem em um blog, abrindo assim a possibilidade de que um número maior de pessoas tenha acesso às suas Histórias. Optei em colocá-lo de uma única vez, em uma única postagem, correndo o risco de que a leitura possa ficar cansativa. Por outro lado, o livro não precisa ser lido de uma única vez, pois a sua estrutura permite começar a leitura de trás para frente, ou no meio, de onde você desejar.
O que acho particularmente interessante é poder entrar na memória dos antigos moradores de Cotia, conhecer como era a cidade, e mesmo quem não é daqui vai acabar por lembrar de histórias parecidas do lugar onde mora. Curta esta leitura delicada.
Você pode encontrar o livro no endereço
ou acessá-lo através do link neste blog.

segunda-feira, 14 de março de 2011

ANTIGA ESTRADA DO PORTÃO


                                              
Esta foto foi tirada na década de 40. Para que possamos nos localizar, este ponto da estrada, que hoje conhecemos como Raposo Tavares, fica em frente ao “Extra”. Naquele tempo a estrada recebia o nome de São Paulo-Paraná, e ali funcionava um entreposto comercial que atendia aos moradores da cidade, aos tropeiros de passagem rumo a Sorocaba e ao Sul do país, e também a viajantes em geral. Nesta década, Cotia tinha 13.439 habitantes. Hoje são mais de 200.000.

Eliana Silva, neta do Nhô Zaca, acrescentou algumas informações ao texto que vão elucidando as memórias desta cidade, que parecem estar tão distantes. Ao mesmo tempo, quando nos debruçamos sobre estes documentos, percebemos que cada história, cada carro, a arquitetura de cada casa e a ocupação do espaço geográfico estão muito vivos ainda:

“Recebi a resposta do Edu, meu primo, com as informações de Valter Silva, neto mais velho do Zacharias, ainda vivo. No velório da Dirce conversei com Aristides Oliveira, que nasceu e cresceu no Portão e está com uma memória fascinante. Foi ele quem falou do Instituto Nacional do Pinho. A foto foi tirada bem em frente ao posto da guarda civil, anterior aos guardas rodoviários do DER. Eram esses guardas civis que paravam os caminhões carregados de madeira vinda do Paraná e de Santa Catarina. O instituto foi criado em 19/3/1941 e funcionou até 1967. (Google)”

Continua Edu, primo de Eliana: Meu pai confirmou. A construção à esquerda era o "Posto do Pinho" mesmo. Onde os caminhões paravam para fiscalização pela polícia. Na foto aparecem os policiais, os quais costumavam ganhar muitos presentes... rsrs.... cabritos, porcos, galinhas, palmitos, etc. A antiga padaria do Portão ficava do lado direito desta construção, e na foto, ainda não havia sido construída. A casa mais à direita, meu pai não se lembra o que era, mas disse que ficava entre a antiga padaria do Portão e a casa da tia Geni. O morro ao fundo é onde hoje está a Etrusca, o prédio da Telefônica e mais à esquerda, a Prefeitura.


Essa foto recente mostra as mudanças que aconteceram neste período de quase 70 anos. É importante observar a intervenção do homem no espaço, mudando radicamente a geografia do lugar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

QUEM TEM MEDO DE SER AVALIADO?


Quase todo mundo tem medo de ser avaliado. Eu tenho! Quem não tem? Este receio é bobagem, pois somos avaliados todos os dias pelas nossas ações. É que às vezes não percebemos ou não queremos perceber. Pare! Olhe com atenção, que sempre tem gente espiando e avaliando.  Exagero à parte, este tema na educação é muito discutido e as opiniões em relação a ele são conflitantes e geram controvérsias. Isto é saudável! Tirando os receios e os preconceitos, ser avaliado transformou-se  em uma  necessidade, tanto para o governo quanto para aqueles que estão envolvidos no processo de educar, em todos os seus níveis. Talvez este receio por parte dos educadores tenha motivo: é aquela velha idéia de que a corda arrebenta do lado mais fraco. O que notamos nas últimas duas décadas foi o investimento em educação feito intensivamente, mas de forma desorganizada. O dinheiro se perde na ineficiência dos governos e na falta de um projeto com objetivos, metas e resultados claros. Os motivos para isto são vários, mas talvez o motivo maior seja que os projetos em educação são de governos e não do Estado. Entra e sai governo mudam-se as nomenclaturas, e às vezes não é dada continuidade a projetos na área educacional que estão dando resultados positivos, por pura vaidade política. Besteira!               
Há anos que estamos diagnosticando! E só diagnosticamos! Sabemos dos problemas e dos caminhos que devemos tomar. O que nos impede? Na década de 90 a discussão sobre avaliação foi muito intensa e o educador Luckesi, especialista em avaliação, contava uma história muito interessante e que vou repetir, para que possamos refletir porque patinamos tanto no diagnóstico. Um paciente chega a um ambulatório reclamando de fortes dores nas costas. O médico atende, examina, pede um “raio-x” e conclui que o diagnóstico é de que o paciente está com pneumonia no pulmão esquerdo. Depois de apresentar o diagnóstico, o médico pede para o paciente voltar no dia seguinte. O paciente volta e o médico percebe que a pneumonia começa a tomar conta do pulmão direito. O médico, preocupado, pede para o paciente voltar no dia seguinte. O paciente volta em uma situação pior ainda. E  novamente o  médico pede para ele voltar no dia seguinte. O paciente nunca mais volta. O que será que aconteceu com o paciente? E o que acontece com os nossos alunos? Mesmo com este quadro temos várias experiências que mostram que podemos dar um salto além do diagnóstico.
 Em Cotia, através da Secretaria da Educação, implantamos o Sistema de Gestão Integrada, com o objetivo de dar um salto de qualidade no ensino, organizando a escola e a Secretaria de Educação com objetivos, metas e resultados. Além deste projeto, o Instituto Gerdau viabilizou a quarenta diretores de escolas municipais cursos de autogestão. O principal objetivo da Secretaria de Educação de Cotia em possibilitar estes cursos foi para que as escolas que participaram dessem o salto além do diagnóstico. Ou seja, pulamos o muro das lamentações, deixamos de achar que tudo era muito difícil. E os resultados começaram a aparecer. Das quarenta e cinco escolas que participaram da Prova Brasil, apenas cinco não alcançaram o índice proposto pelo governo federal. Mesmo assim, não ficaram muito abaixo. É bom salientar que não foram apenas os cursos de gestão que contribuíram para este aspecto positivo. Os cursos de formação e outras ações foram decisivos também, o que em outro momento vamos retomar em detalhes. Outro aspecto importante é que os índices de aprovação de muitas escolas municipais estão acima de muitas escolas particulares da região.

quinta-feira, 3 de março de 2011

NO LIMITE


A pesquisa sobre a ocupação territorial de Cotia, escrita e publicada em livro pelo arquiteto e historiador Mário Savioli, merece ser lida e apreciada por quem pretende conhecer melhor a cidade. O autor elege a Rodovia Raposo Tavares como tema central do seu estudo, e a partir dele mostra o surgimento dos bairros periféricos e a expansão e ocupação territorial da cidade, feita de forma intensiva e desordenada nas últimas décadas. Uma pesquisa muito singular sobre Cotia. Um outro aspecto interessante do trabalho do historiador Mário Savioli é a contextualização histórica da sua tese. Imagine Cotia sem a Rodovia Raposo Tavares. Ela sempre foi a espinha dorsal da cidade. Vamos lá! Como eram as vias de comunicação antes da Raposo Tavares? As trilhas indígenas, os rios e córregos eram uma forma de adentrar em nossas terras e também de ir além delas, rompendo fronteiras. Pensando assim, quero convidá-lo a conhecer Cotia com um olhar diferente do que estamos acostumados. Venha comigo! Começaremos a partir dos rios que ficam nos limites do município, depois iremos às nascentes, e por último aos rios degradados.   
Como sugestão, este tema é instigante para realizar uma pesquisa e envolver os alunos. Vamos ao Jardim Japão!  O jardim Japão faz divisa com a cidade de Ibiúna,  e o rio que faz esta divisão é o Sorocamirim, que tem uma importância significativa  na vida dos moradores deste lugar. O Jardim Japão surgiu na década de 80, com terrenos de 5m por 25m, e o crescimento foi rápido, mas muito mais do que rápido. Não tinha água potável e nem saneamento básico. Os moradores começaram a furar poços e a construir fossas, e não demorou  muito tempo para contaminar o lençol  freático. O olhar dos lideres comunitários do bairro voltou-se para o rio Sorocamirim como  solução para a falta de água. Foram anos de luta para que os problemas fossem resolvidos. Hoje o bairro recebe água tratada da Sabesp e do rio que divide Cotia de Ibiúna. A Sabesp instalou ali um posto de tratamento de água separado da estrutura que abastece Cotia. Não é interessante? Não só interessante, como merece um estudo aprofundado. E por outro lado, é uma experiência que pode ser implantada em outros lugares.
                                                        

Estação de tratamento de água da Sabesp do Jardim Japão, no Rio Sorocamirim.  
                        

Rio Sorocamirim, que divide Cotia de Ibiúna.
 
O Ribeirão da Ressaca divide o município de Cotia com a cidade do Embu e com Itapecerica da Serra. Existe uma certa confusão em relação a esta divisão do município. Conversei com um morador antigo do bairro da Ressaca sobre a existência daquele ribeirão, e  ele não sabe quase nada e tem poucas lembranças, mesmo morando ali há quarenta anos. O que percebi dos moradores é que a ambiguidade cerca aquele lugar, pois as pessoas não sabem muito bem onde fica a divisa e a qual município pertencem. “Aqui neste fim de mundo, quem chegar primeiro e fizer alguma coisa pra gente, leva o voto”, disse um morador. O mais estranho de tudo é que o ribeirão não é nem percebido pelos moradores. Não tenho idéia se são todos, mas a indiferença é grande em relação ao ribeirão . Também merece um estudo. Fica muito claro que, se a comunidade não sente aquele ribeirão em suas vidas, é difícil preservar.
Outro ribeirão que divide Cotia de São Paulo e Osasco  é o Ribeirão Carapicuíba, ali no km 21. As moradias foram se formando com o tempo, na divisa, e os problemas também. O rio que antes servia de caminho e até abastecia a população, agora se tornou um problema. Diferente do Sorocamirim, que abastece o Jardim Japão. Durante anos os moradores  sofreram com as inundações, aparentemente resolvidas no ano passado com a construção de uma contenção lateral no barranco do rio. Outro rio que divide a cidade é o Córrego da Estiva. Este e o Ribeirão Carapicuíba parecem mais um esgoto a céu aberto. O Córrego da Estiva divide Cotia de Itapevi, ali no bairro do Rosemeire. Talvez, de todos os rios da cidade, este esteja em um estado mais deplorável do que os outros. Vale lembrar que na divisa fica a Roselândia, que deve ser resgatada e apresentada à cidade e ao mundo, pois ali existem experiências maravilhosas com rosas. Nesta pequena conversa dá para fazer uma viagem pela história de Cotia e do Brasil. A ocupação do território brasileiro a partir de Cotia e outros temas como a escravidão são fascinantes. É só querer.          

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

UM ROTEIRO DE PESQUISA SOBRE COTIA


Está chegando o aniversário de Cotia, e com ele vêm-me à memória as perguntas sobre a História da cidade, que costumava fazer aos meus alunos na época em que lecionava: Quando surgiu Cotia? Quem criou Cotia? Aqui tinha índio? Em que data nasceu Cotia? Teve escravidão em Cotia? De onde veio o nome de Cotia? Onde encontramos material sobre a História de Cotia? Estas perguntas servem, na verdade, para qualquer cidade do Brasil, mas o que acho interessante, é que tem gente curiosa. Muito! E quando essas pessoas começam a perguntar, dá para desenvolver uma boa pesquisa.

Tempos atrás conheci o Professor Milton Meira do Nascimento, da Universidade de São Paulo, que na época desenvolvia um projeto que tinha como objetivo principal pesquisar a História dos municípios. Depois da fase de coleta de material e de sua elaboração, a intenção do professor era publicar um livro sobre a História do município pesquisado.

Interessei-me, mas acabamos por tomar rumos diferentes e não me foi possível engajar na empreitada. E fiquei este tempo todo com a idéia da importância da pesquisa martelando na cabeça. Mas como é difícil encontrar material para realizar este trabalho!

Porém, mesmo que o intercâmbio com o Professor Milton tivesse falhado, a sua iniciativa me estimulou a pensar e a propor um projeto para que cada escola se transformasse em um pólo de pesquisa sobre o município. E ainda mais, ampliar esta idéia de maneira que cada morador também se tornasse um pesquisador. Que tal?

Vamos começar nosso roteiro de pesquisa com o médico e poeta Paulo Bafile, que em seu livro “Acoty Tour”, escreve um texto criativo e bem humorado sobre a origem do nome de Cotia. Apesar de ser um texto de ficção, ele abre a possibilidade de cativar os alunos e de levá-los para uma pesquisa mais aprofundada sobre tema. Leia e divirta-se!

O CASO DA COTIA QUE COMEU A MESA

“Minha mãe me contava um caso antigo, do tempo em que era menina, no Acre. Um dia trouxeram para casa um filhote de cotia pego no mato. Minha avó pôs a cotia para criar, solta dentro de casa e pelo quintal. A cotia foi crescendo, e deu de roer tudo. Um dia, roeu o pé da mesa onde se comia, e a mesa ficou pensa. Aí minha avó se encheu, matou a cotia e comeram a cotia no almoço, sobre a mesa que ela roera.”

Não é engraçado começar o estudo sobre a origem de um nome desta forma? Depois de um bom papo e das risadas com a cotia que foi pra mesa, sugiro alguns textos sobre a cidade, pouco conhecidos, mas escritos com seriedade. O padre e pesquisador Daniel Balzan, que durante anos esteve no comando da Igreja da Matriz de Cotia, que lhe seja feita justiça,   enquanto esteve nestas paragens nunca alterou em nada a arquitetura da igreja, cuja fundação data de 1713. Dos textos escritos por ele, todos são importantes documentos para esclarecer a origem dos mandatários da cidade e o papel que a Igreja exercia na época.

Com certeza, um texto que os nossos pesquisadores adorariam conhecer é um que discorre sobre o “Sepultamento na Freguesia de Cotia”, ou seja, trata da maneira como eram sepultados os mortos da cidade, que nesta época podia ser ou dentro ou em torno do prédio da igreja. Ficou curioso? Com este tema sugestivo encontraremos um farto material de pesquisa a céu aberto, tal como túmulos com nomes de famílias tradicionais, que vão nos revelar, por exemplo, quem foram durante muito tempo os donos do poder.

Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat, na praça da matriz. Ainda se encontra taipa de pilão em suas paredes. Ela foi inaugurada em 1713, nas terras do senhor Camargo. É o segundo núcleo de moradores que se formou em Cotia.


Além deste tema proposto, outro sugestivo é sobre a imigração japonesa. No cemitério da igreja matriz encontram-se também vários túmulos com os nomes dos primeiros imigrantes que aqui chegaram. Não precisa ter medo de fantasmas!


Dando continuidade ao roteiro de pesquisa, o professor deve estar, nesta altura, de cabelos em pé e preocupado com o conteúdo curricular que precisa ser ensinado. Não precisa entrar em “estado de neura”, colega! É só parar e pensar sobre o material de pesquisa recolhido e verá que Cotia tem uma relação íntima com a História do Brasil e do mundo. A partir da História local podemos trilhar inúmeras rotas e buscar relações com a História Antiga, com o Período Colonial e outros mais. É só querer! Apesar de não compartilhar muito com esta “história linear”, dá para estudar a História local e não deixar de ensinar o tão cobrado conteúdo. Na verdade, dá para ensinar tudo ao mesmo tempo.


Há cidades antigas, inclusive a antiga Embu, que decidiram preservar seu patrimônio histórico e fazer dele uma atividade de exploração econômica. Ao contrário de Cotia, que foi aos poucos destruindo o seu patrimônio histórico, mais aceleradamente a partir da década de 70. Mesmo assim, temos ainda algumas construções para contar a história arquitetônica do município. Vamos lá!

Temos o Museu do Padre Inácio, o Sítio do Mandu e a Igreja da Matriz. O museu, segundo os estudiosos sobre o assunto, é o maior exemplar de casa colonial em torno de São Paulo e data do século XVIII. Em relação ao Sitio do Mandu, existe uma polêmica sobre a época em que a casa foi construída, mas é colonial. Algumas pesquisas apontam que o primeiro núcleo de moradores de Cotia se formou próximo a este sítio. A Igreja da Matriz data de 1713, e ali na praça se formou o segundo núcleo de moradores. Estas obras arquitetônicas podem ser visitadas e estudadas.

Aproveitando o espaço ao redor destas construções históricas, uma pesquisa interdisciplinar que seria importante para desenvolver é sobre os rios e córregos do município. Rio das Pedras, Sorocamirim e o mais conhecido de todos, o Rio Cotia. Sugeri apenas alguns nomes, mas  aposto que perto de você tem algum rio ou córrego que você conhece. E se não, por que não conhecer melhor? Eles com certeza foram usados pelos exploradores para ampliar e consolidar a expansão geográfica do interior paulista . Acho que você não imaginava a existência de tanta coisa para ser pesquisada e de tantas fontes de informação perto de nós, não é?

Museu do Padre Inácio – casa colonial do século XVIII.


O arquiteto e pesquisador Mário Luiz Savioli escreveu e defendeu uma tese sobre Cotia, da origem aos dias atuais, e publicou o livro “A Cidade e a Estrada”, um trabalho de pesquisa  completo realizado até então, mostrando com clareza os momentos de ascensão e crises do lugar. Um dos períodos abordados pelo autor foi o de quando Cotia quase desapareceu por causa da construção da Estrada Ferro no distrito de Itapevi. O pesquisador ainda ressalta a ocupação desorganizada das décadas de 70 e 80, um estudo atual. A espinha dorsal desta pesquisa é a Rodovia Raposo Tavares, antes estrada e durante muito tempo Rodovia São Paulo-Paraná. Outro historiador que escreveu muito sobre Cotia é o português já cotiano, João Barcellos, mas com temática diversa em relação à cidade.


Outra sugestão para pesquisa é o processo migratório ocorrido no final da década de 60, com a vinda de mineiros que formaram o Bairro do Rio Cotia, tema abordado no livro “Acoty Tour”.

Sítio do Mandu que foi todo restaurado. Ele está próximo do primeiro núcleo de moradores de Cotia


Alguns moradores de Cotia têm postado fotografias e memórias nas redes sociais da Internet, uma outra grande fonte de informações, com certeza, e que democratiza o acesso de todos aos documentos históricos sobre a cidade:

- Cícero Manoel de Oliveira, que tem um acervo significativo de fotos e de memórias da família Oliveira;
- César Tibúrcio, que tem postado fotos e escrito em uma revista local sobre a memória da cidade;
- O irreverente Beto Kodiak também tem socializado seu material fotográfico e histórias sobre os moradores antigos.

Como você pode perceber, material para pesquisa não falta, nem aqui em Cotia e nem onde você está, leitor. É só olhar cuidadosamente, e um mundo de informações vai saltar aos seus olhos de pesquisador.

Quero indicar a leitura de livros sobre personagens ilustres da cidade, como o poeta Batista Cepellos e o Regente Feijó. Gente de Cotia:

Bafile, Paulo. Roteiro Poético Absolutamente Pessoal e Sem Mapa para a Cidade de Cotia.
Barcellos, João. Feijó & Cepellos.
Savioli, Mário Luiz. A Cidade e a Estrada.

Estes livros foram fontes valiosas também para minhas consultas.


Professor Marcos Roberto Bueno Martinez

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O GOLEIRO

Arquivo: Berê Bertuzzi
Recebi esta foto, que foi enviada pela Berenice Bertuzzi (Berê), perguntando se eu poderia adivinhar quem é este  goleiro parado no tempo e que lugar é este em que foi tirada a foto. Durante um tempo fiquei observando e associando as informações que tenho sobre a cidade, mas não consegui descobrir o personagem estático no ar e nem o lugar. Não resisti à curiosidade e pedi que ela me revelasse as informações contidas na foto.  Surpresa! Com certeza você já passou por ali várias vezes.
O lugar onde o Senhor Benedito Camargo Vieira (Apelido  Kayano) exibe a sua boa forma como goleiro é a Praça Joaquim Nunes, a praça do cemitério antigo. O morro atrás faz esquina com a Avenida Mathias de Camargo, onde foi construída a Padaria Estrela, e que hoje deu lugar à loja Marbru. A casa no morro foi demolida há pouco tempo. A foto foi tirada em 1954.   
Prof. Marcos Roberto Bueno Martinez