Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

terça-feira, 9 de junho de 2015

*“ESTE O NOSSO DESTINO: AMOR SEM CONTA”


Marília amou José com todos seus sentimentos. Realizaram o sonho da casa própria. Os filhos vieram. Amor perfeito. Tudo funcionava como um relógio de boa qualidade, impecável! José também a amava com todos seus sentimentos,como Marília o amava. Com o tempo, um desses sentimentos acordou com ciúme. As atitudes, antes carinhosas, agora ásperas. Esqueceram de quando namoravam e faziam juras de amor. Tudo terminou diferente de como começou: notícia trágica em uma página de jornal sensacionalista.

Marília como outras marílias queria encontrar seu príncipe encartado. José também queria encontrar sua princesa. Encontraram-se e foram felizes para sempre. Tem amor que dura para além da vida. Nunca pararam de namorar. Nunca se esqueciam de, pelo menos, uma vez ao dia dizer que se amavam. O casamento foi dos sonhos. Parecia saído dos livros de contos de histórias de príncipes e princesas. Sempre enamorados.

Marília tinha o sonho de um dia se casar. Andava no mundo da lua com essa ideia. Tinha um sonho de encontrar um namorado, antes de se casar. A cartomante dizia confiante que um dia ele apareceria inevitavelmente. O Pastor, nas suas revelações, dizia que seu grande amor viria montado em um cavalo branco. O Padre dizia com convicção que celebraria seu casamento. O tempo passava e nada de aparecer o pretendente. Marília não desistia do seu sonho. Persistia. Nunca se desassossegou. Um dia, desses que nada promete, Marília esbarrou seu carro na esquina de casa em outro carro.Marília realizou seu sonho naquele dia,desceu do carro José,e o olhar decidiu ali que seria amor à primeira vista. E foi! Namoraram e casaram.

Marília e José amaram e namoraram o outro ou outra mesmo que o outro ou a outra não soubessem. Quando encontrava o amor platônico as mãos suavam. O corpo tremia. Parecia que o mundo ia acabar ali. O amado nem ligava, pois não estava envolvido naquela fantasia. Não estava envolvido naquela trama amorosa. Mesmo assim, Marília e José sonhavam com o namorado ou a namorada. Namoravam! Como é bom fazer de conta. Como é bom viver de fantasia. O importante é amar.

Marília e José não passaram um dia do Dia dos Namorado, sequer, sem um enrosco para ganhar um presente.Interesseiros! Apenas um presente. Muitas vezes o namoro acabava antes da meia-noite. Se passasse depois da meia-noite alguém poderia virar abóbora. Espertos. Risadas!

Gente igual a Marília e a José existe em todos os lugares. Como é bom estar namorando, mesmo que seja por um instante. 

*Frase do título foi tirada do poema Amar, do Poeta Carlos Drummond de Andrade.


“CAMINHANDO CONTRA O VENTO SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO...”


Na década de setenta, caminhar sem documento era cana na certa ou humilhação. Esculhambação! O documento que valia nessa época era a carteira de trabalho com registro de emprego. Se não houvesse registro de um trabalho, o esculacho era quase certo. De vagabundo pra baixo. Em uma parada policial, a Carteira Profissional indicava que você era um cidadão. A carteira de trabalho era sua alforria. 

Cidadão completo era aquele que apresentava a carteira com registro de trabalho, orgulhosamente! Com o tempo, esse documento majestoso foi saindo de cena. O Milagre Econômico do Regime Militar não surtiu o efeito pretendido e o desemprego apareceu, violentamente, junto com a inflação.Em um país que o desemprego é grande, a carteira perdeu seu valor no sentido de estabelecer cidadãos. Ora, cidadão é um conceito que vai além de um registro na carteira profissional.  

Depois desse período...

A carteira perdeu seu status quo! Entra em cena a carteira de identidade... Lembram?

Depois desse período sombrio, na década de oitenta, a carteira de identidade aparece soberana. Um tempo de Diretas Já! Um período de reconstrução da democracia. Uma explosão de eventos culturais. Quase todo mundo querendo dizer alguma coisa. A carteira de Identidade aparece leve e suave. Sua exigência não era tão necessária como a profissional. Para abrir um crediário, a carteira de trabalho tinha sua importância, mas não sozinha - agora acompanhada da identidade. Começava a aparecer um cidadão light, mas indignado com a injustiça.

Com o tempo, a carteira foi substituída, no caso de uma compra de crediário, pelo holerite.
Inflação, desemprego e outras mazelas sociais, mas a identidade, quando solicitada, o cidadão não se apresentava tão submisso. Questionava! Falava de direitos. Os tempos eram outros. A Constituinte promulgada. Cidadão.

Depois da década de oitenta...

A democracia consolidada e o mercado ampliado e,consequentemente,o consumo. Milhões de brasileiros saindo da miséria foram inseridos no mundo do consumo, alucinados. A carteira profissional e a carteira de identidade estão quase aposentadas- o que vale como documento hoje é o CPF. Esses números dizem que você, como cidadão, está inserido no mercado de consumo. Cidadão consumido.

Agora, a luta é contra a corrupção. A ditadura militar ficou lá pra atrás (apesar de que há gente com saudade). O que vale é o que temos não o que somos. Não precisamos de documentos para dizer que queremos ser cidadãos. Já somos! A caixa do mercado pergunta antes de registrar a compra:o senhor quer Nota fiscal Paulista? Sim ou não? Sim! Qual o número do seu CPF?Agora, sim, cidadão inserido. É bom lembrar que ainda temos milhões que ainda não têm e não tiveram nenhum desses documentos. Não foram inseridos no mercado de consumo. Estão à margem!


Qual será o próximo documento que entrará em moda? 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

AMIGOS DAS ANTIGAS


Quem já não reencontrou um amigo das antigas e se arrependeu profundamente? E disse:melhor seria não o ter reencontrado. Talvez inocentemente e carregado de saudades das antigas amizades,esse reencontro fosse apenas para manter aquela imagem positiva que se tinha daquele amigo. Aquela amizade que um dia marcou,por um instante, sua vida. As coisas não funcionam assim! Imaginem se todos nós continuássemos como há trinta anos? Alguns amigos das antigas parecem ter parado no tempo, mesmo o tempo andando aceleradamente.

Há reencontros que valem a pena.

Outro dia reencontrei um amigo das antigas em um Centro Comercial, desses modernos. Quando me viu, veio ao meu encontro.“Poxa cara, que saudade de você. Você não envelhece?”. Deu-me aquele abraço! Começamos a conversar sobre os momentos que vivemos na década de oitenta e, aos poucos, fui percebendo que meu amigo, bicho grilo, não tinha mudado em nada. Radicalmente defendia seus gostos musicais e tudo o que acontecera,fora da sua preferência, não passava de lixo cultural. No campo da política defendeu o socialismo como se ainda existisse plenamente, ou como se estivéssemos vivendo no período da guerra fria. Sua argumentação forte queria me cooptar para a luta armada, contra o capitalismo.

Saí dessa conversa me achando um parasita social.

O que me impressionou,independentemente dos seus pontos de vista, é que ele não acrescentou nenhuma informação do que ocorreu no mundo em todos esses anos. Do jeito que ele defendia suas ideias parecia que não adiantava nenhuma argumentação contrária ou informação. Para ele, sua verdade era absoluta. Calei-me e o ouvi com uma vontade louca que aquele reencontro acabasse.
Longe de qualquer pessimismo,há amizades que valem pela vida toda.

E aquela amizade do amigo que ainda continua mala. Bem mala mesmo! Poxa cara, você está gordo? Poxa você envelheceu? Poxa seu cabelo está branco? Após esse reencontro do amigo mala, saímos à procura de um psicanalista (risos). Mas, mala mesmo é aquela ou aquela que quer salientar enfaticamente seus defeitos. Amigos da onça. E aquele amigo do: eu já sabia! Você conta uma história que tenha marcado sua vida negativamente para um amigo e espera ouvir algo que acalente. Engano seu... Você ouve “eu sabia que não ia dar certo”. Age como se fosse vidente. Ou diz “não te 
falei!”. Esse tipo de comentário é foda!

Quem não tem um pouquinho de chatice?

Temos também os amigos que nunca foram amigos. Temos também os amigos que são tão amigos que passam a fazer parte da família. Ora, para encerrar esta conversa imagina se não existissem amigos das antigas, inconvenientes, na nossa vida, seria uma chatice total.









sábado, 30 de maio de 2015

COM A CHEGADA DO FRIO CADÊ O ALTRUÍSMO?


Com a chegada do frio (inverno),lembramo-nos dos sabores alimentares que o tempo proporciona:fondue, queijos e vinhos!Sopas saborosas e tantas outras comidas que aquecem.

Uma amiga diz alegremente que, no inverno, se sente bonita com as roupas que usa para se aquecer. Segundo ela, a opção por usar roupas diferentes aumenta com o inverno. Não discordo em relação às roupas, mas prefiro que o clima não fique nem muito frio e nem muito quente. Nem tudo é do jeito que a gente deseja. Nossas vontades e coisinhas habituais que aquecem nosso ego deveriam ser trocados por ações de solidariedade nesse período de frio.Que tal? Não seria uma boa?

O altruísmo é um sentimento que pode ser despertado.

Outro dia assisti, em um programa de televisão,uma jovem “boa pinta” que criativamente montou uma estrutura para arrecadar roupas de frio para socorrer moradores de rua. Envolveu amigos e a ação foi um sucesso. Inclusive, também usou as redes sociais. Ora, as redes sociais, além de exibirem nosso cotidiano,podem servir para ações altruístas. Que bacana, né! Estenda suas mãos a alguém que está precisando ser aquecido.

Iniciativa assim enaltece o espírito.
Aqui, onde moro, um grupo de jovens sai à noite nessa época de frio elevado para distribuir sopa quentinha aos moradores de rua. Segundo um amigo que participa desse movimento, o objetivo é aquecer o corpo e o espírito. Será que ações desse tipo também trabalham o preconceito que alimentamos contra gente que mora na rua? Trabalha com o preconceito que temos contra a pobreza? 

Como diz uma amiga: um prato de sopa aproxima as pessoas. 


Não é só quem mora na rua que passa frio. No mundo real, muitas famílias passam frio e fome. As campanhas institucionais já começaram em diversos lugares e você pode encontrar uma caixa para depositar uma roupa para aquecer alguém. Faça um gesto legal.Pode procurar aí perto do lugar onde você mora sempre encontrará alguém arrecadando uma peça de roupa para aquecer. Além de uma pessoa, pode ter uma igreja ou uma ONG. Lugar não falta para ser solidário nesse inverno.

Tem muita gente esperando. 

O MEU FILHO É DIFICIL DE LIDAR


Conversando com amigos e amigas sobre o comportamento dos filhos, há tempos que alguns pais têm demonstrado preocupação com a agressividade que os filhos têm apresentado. Normalmente os pais são tomados de um grande susto quando começam a receber reclamações da escola e, em alguns casos, até expulsão por algo que seu filho tenha feito que fuja às regras do convívio social. Talvez erramos em criar um muro de lamentações: faço tudo para ele ou para ela. Quando criança não tinha nada do que proporciono para eles. A minha vida não foi tão fácil. Preencheríamos várias folhas com diversas lamentações.

Lamentar não adianta muito.

Será que não falta perguntar a si mesmo onde erramos e acertamos na educação dos filhos? Seria um bom começo para aliviar a culpa e a angústia.

Sofremos pelos filhos.

Você pode pensar que estamos falando de adolescentes: uma idade onde impera a rebeldia (nem sempre!). Não! Estamos falando de crianças com seis, sete e oito anos em diante. Em alguns casos, antes dos seis anos tornam-se agressivas.Crianças dóceis que se transformam diante dos olhos dos pais. Muitos pais revelam que não conhecem mais seus filhos. O rosto desses pais, quando relatam suas histórias com seus filhos, expressa preocupação e angústia. Desespero! O que fazer? Como seria bom existir uma receita de como educador os filhos. É bom salientar que nem as receitas às vezes são certas. Às vezes, o bolo sola. Ora, às vezes o tempero também desanda.

Nem um filho é igual ao outro (nem os dedos das mãos são iguais).

Alguns pais se desesperam quando esse comportamento de agressividade e de rebeldia aparece na escola. Em muitos casos as reclamações se acumulam até ocorrer a expulsão. A escola que expulsa merece um ponto de interrogação em relação à sua eficiência. Talvez um caminho possível também seja observar como andam as coisas dentro da família. Como estão? Alguns pais têm optado pelo tratamento psiquiátrico acompanhado de medicamento. Quanto à escola, alguns insistem em tratar os alunos como se fossem todos iguais. E aqueles que diferem das normas pedagógicas determinadas são expulsos. São estigmatizados.

Burros, esquecidos em um canto pela escola e pelos amigos. Agressivo, futuro delinquente. E assim vai...

Posso estar errado, mas não vejo esse comportamento diferente de alguns filhos como questão social. Essa dificuldade de lidar com os filhos acontece em todas as classes sociais e os pais são pegos de surpresa. São pegos no contrapé. Pobres ou ricos. O que fazer? Talvez uma ação eficiente seja dialogar com todos envolvidos nesse relacionamento. Ninguém pode ficar de fora desse contexto. Ninguém pode apontar o dedo e achar que está livre de crítica. Tem que ser uma avaliação honesta.

Nesse difícil crescimento do seu filho não o deixe sozinho. 

sábado, 23 de maio de 2015

TOQUE DE RECOLHER - SEMPRE UM PONTO DE INTERROGAÇÃO


Quando somos informados que tal dia tal hora haverá toque de recolher, a primeira sensação é de medo. A segunda sensação é de que será verdade ou mentira? Frente à dúvida, é melhor recolher. Ficar em casa. Esvaziar as ruas.Silenciar-se!Na verdade, estamos sendo vítimas da nossa própria língua. Fofoca! Acreditamos nos boatos sem nenhum questionamento. Repetimos os boatos incansavelmente e, muitas vezes, acrescentando detalhes para apimentar ainda mais a notícia. Parece que insinuações e mistérios em torno do toque de recolher criam um cenário eminente de medo.

Vivemos com muito medo.

Normalmente a notícia de que existirá toque de recolher vem acompanhada de um crime.Os boatos
vêm de vários lugares e repetimos incessantemente. Os repetidores até criam histórias e inventam outras para espalhar o pânico. Foi o traficante do bairro que deu a ordem. Foi o chefe do crime da região. A ordem do toque de recolher veio de dentro da cadeia. E a justificativa é quase sempre de que alguém do crime foi assassinado pela polícia. Será verdade? Quem realmente está por trás desses boatos que fecham o comércio? As mães vão à escola do bairro buscar seus filhos apavorados.

Sensação que estamos desprotegidos.

Ônibus são incendiados. O Governo justifica esse dia de pânico de forma burocrática. Está tudo sob controle. Não existia nenhuma instituição criminosa organizada. Temos o controle! Quem realmente está por trás desses boatos? Quem? A quem interessa destruir ônibus? A quem interessa fechar zonas inteiras de comércio? As explicações não convencem. E cada dia aumentam ostoquesde recolher pela cidade.

Quem está mentindo?

No México, nos Estados pobres, as milícias comunitárias formadas por moradores combatem o crime no lugar do Estado. O Estado não existe nesses lugares no México. Aqui é outra situação, mas existe um ponto comum entre nós e eles - ausência de políticas públicas. O que tem piorado aqui também é a distância dos políticos dos interesses coletivos da população. Afinal, quem está por trás do toque de recolher eque tem espalhado tanto medo?


Indignação. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

OBSERVAÇÕES SOBRE CORREGO DA VOLTA: ITAREMA, CEARÁ


Minha querida Professora Andréia Carneiro,

há tempo que me preparo para escrever esta carta e,num piscar de olhos,sou vencido por outros afazeres. Guardo boas lembranças dos dias que passamos por aí. Sabe como a vida é corrida, né? Corrida demais! Como andam as pessoas que temos apreço e carinho que moram no Córrego da Volta? Espero que estejam todos bem e com saúde. Gente alegre e receptiva que nos recebeu de um jeito que nos deixou à vontade.

Gente boa demais...

Andréia, que passeio maravilhoso que vocês nos proporcionaram quando fomos ao Porto do Barco, em Itarema. Depois que cheguei aqui em casa fiquei pensando com cabeça de professor(risos) esse lugar tão lindo daria para realizar uma pesquisa e tanto com os alunos. O que você acha?Como surgiu esse Porto? Os moradores antigos como o sr. José Rubens e outros que residem aí poderiam enriquecer a pesquisa com histórias e informações do local. Como é a vida dos pescadores? A vida das mulheres dos pescadores do Porto do Barco?Muitas perguntas e respostas.

Tem um universo de coisas a serem pesquisadas nesse lindo lugar.

Naquele sábado que chegamos ao Porto do Barco observei um caminhão carregado de atum e um japonês classificando-os. Como eles fazem no Japão. Não resisti e perguntei se era recente a pesca de atum na cidade e que,das outras vezes que estive ali, tinha visto uma variedade de peixes menos o atum. Logo um pescador disse que a exploração desse peixe era recente e não era uma pescaria comum por ser de profundidade,e que os japoneses eram especialistas nesse tipo de pesca.

Andréia, que material de pesquisa sairia daí? As crianças adorariam estudar a cultura japonesa e comparar com a vida que levam, aí na Volta Córrego. Imaginou! O que essa nova cultura de pesca do atum trouxe de mudanças para a vida dos moradores do Porto e de Itarema? Seria muito bacana.

Tem assunto que não acaba mais!

Recebemos a notícia do falecimento do tio Manoel com tristeza. Parece que nos últimos tempos os antigos moradores da Volta estão nos deixando. Andréia, um jeito de eles não serem esquecidos é transformá-los em objeto de pesquisa. É Andréia, estudá-los! Que tal? Origem da Volta! Na casa do tio Manoel aquela Casa de Farinha que, com certeza, tem muita história para ser registrada. Seria interessante fotografá-la.  

Outra sugestão seria construir com os alunos,a partir de depoimentos dos antigos moradores, um banco de memória. Como ia ficar bacana Andréia!

Andréia, vou parar por aqui e voltamos a conversar. A Germana manda um abraço e estamos com saudade. Já ia me esquecendo de mandar um abraço ao Professor Ronério.

Até mais